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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Uma coisa que inputam na sua língua

O problema é o inputar, inputar é o limite. No dia em que esse verbinho emergente do informatiquês for escrito com eme, nós até podemos conversar. Imputar é feio, mas talvez não seja mais condenável que o vitorioso deletar, anglicismo de valor (apagar – no computador, a precisão costuma vencer). Mas inputar, não. Inputar eu […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 14h47 - Publicado em 18 jul 2010, 09h27

O problema é o inputar, inputar é o limite. No dia em que esse verbinho emergente do informatiquês for escrito com eme, nós até podemos conversar. Imputar é feio, mas talvez não seja mais condenável que o vitorioso deletar, anglicismo de valor (apagar – no computador, a precisão costuma vencer).

Mas inputar, não. Inputar eu refuto. Que inputem tranquilamente professores, governantes e empresários, só posso lastimar.

É bobagem, sei muito bem, tentar impedir o fluxo migratório entre línguas, sobretudo quando o amado idioma pátrio se vê diante de outro em flagrante delito de submissão cultural – hoje ao inglês, como ao francês um século atrás. Nesses casos, a língua dominante não pode ser detida, vem no pacote ciência-indústria-letras-cultura-diversão. Não adianta ser contra ela. Seria tão insensato quanto ser contra um fenômeno da natureza, uma tempestade, peito aberto contra a força dos ventos: “Não passarão!”

Sendo assim, viva o marketing, o show, o ranking, o sundae, o rock, o shopping and all. Já são de casa. Mas é absolutamente imprescindível defender uma última trincheira, ainda que simbólica, um núcleo mínimo de orgulho. Não deixar que lhe quebrem a espinha. E esse limite é o inputar.

Inputar é o fim da linha. Inegociável. Isto aqui pode estar cheio de anglicismo mas ainda se chama português: para passar, tem que pagar pedágio. Inputar incorre em crime de lesão espiritual contra a língua, pois com seu ene antes do pê (antes de pê e bê só se usa eme, ressoam lições imemoriais, giz na lousa, os joelhos da professora, o sol lá fora) “não tem foros de cidade”, como dizia Machado. A pena é mudar de grafia, entubar um eme que o emascule:

Imputar. 1. Do latim imputare. Atribuir (a alguém) a responsabilidade de algo. 2. Do inglês to input. Inserir, incluir (especialmente dados).

Cumpra-se.

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