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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

O saque, o saco e a ressaca

Supermercado saqueado no Recife (Bobby Fabisak/JC Imagem/Estadão Conteúdo) Os saques (ato de saquear, isto é, pilhar, roubar, apossar-se com violência de) que aterrorizaram o Recife esta semana, durante a greve de policiais militares e bombeiros, já foram chamados no português antigo de saco. Mas imaginar um parentesco do saque com a palavra saco, “bolsa”, do […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 03h50 - Publicado em 16 Maio 2014, 17h00

Supermercado saqueado no Recife (Bobby Fabisak/JC Imagem/Estadão Conteúdo)

Supermercado saqueado no Recife (Bobby Fabisak/JC Imagem/Estadão Conteúdo)

Os saques (ato de saquear, isto é, pilhar, roubar, apossar-se com violência de) que aterrorizaram o Recife esta semana, durante a greve de policiais militares e bombeiros, já foram chamados no português antigo de saco. Mas imaginar um parentesco do saque com a palavra saco, “bolsa”, do latim clássico saccus, seria um erro.

O verbo que está na origem do saque é sacar, advindo de sacare. Este não é um termo do latim clássico, mas uma palavra de provável origem gótica (de sakan, “pleitear na justiça”), que despontou no latim falado na Península Ibérica na Idade Média. Isso explica que entre as línguas neolatinas só tenha deixado traços em português e espanhol, segundo o filólogo catalão Joan Corominas.

O sentido original de sacare era “obter judicialmente, desapossar”. Por extensão, passou a ser usado também com o significado de “esbulhar, usurpar” pela força, e não apenas por vias legais. Ou seja, a relação com os saques desta semana não poderia ser mais clara.

Um pouco mais tortuosos, embora também compreensíveis, são os caminhos que alargaram o alcance semântico do verbo sacar para incluir aquelas acepções que envolvem rolhas, dinheiro no banco e bolas de vôlei ou tênis – ou mesmo, no português brasileiro informal, aquela que faz de sacar um sinônimo de compreender.

Em todas essas acepções é possível perceber, lá no fundo, as ideias vizinhas de tirar, extrair, trazer para fora, arrojar, geralmente – mas não obrigatoriamente – de forma brusca: puxar a rolha, tirar o dinheiro da conta corrente, arrojar a bola, extrair de algo seu sentido.

A ressaca do mar tem a mesma origem, tendo surgido no espanhol no par saca y resaca com o significado de fluxo e refluxo das ondas – como observa o Houaiss, por meio da ideia de que o mar lança objetos na areia (saca), para em seguida sugá-los de volta (resaca).

A ressaca com o sentido de mal-estar provocado por algum excesso, normalmente alcoólico, é para o mesmo dicionário um brasileirismo em que essa volta da onda ganha papel metafórico. Registre-se, como observaram alguns leitores, que tal acepção é usada também em Portugal.

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