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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

A verdadeira história da expressão ‘cuspido e escarrado’

Por Sérgio Rodrigues - Atualizado em 12 fev 2017, 14h15 - Publicado em 8 jun 2014, 13h31

De hoje até o fim da Copa do Mundo, que cobrirei para VEJA, o Sobre Palavras trará uma seleção de colunas de outras jornadas. O texto abaixo foi publicado em 11/9/2013.
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O comediante Gustavo Mendes como Dilma Rousseff: ‘spitting image’

Quase todo mundo conhece a tese segundo a qual a ancestral expressão portuguesa “cuspido e escarrado”, usada para enfatizar a semelhança de uma pessoa com outra, teve origem numa corruptela, num desvirtuamento de palavras mais elegantes promovido pela ignorância do povo. A locução original seria “esculpido em Carrara”, isto é, cinzelado no nobre mármore da região italiana de Carrara pelas mãos hábeis de um artista.

Um número bem menor de pessoas conhece a contestação que os estudiosos brasileiros de expressões populares costumam fazer dessa tese tão disseminada. Em vez de “esculpido em Carrara”, alegam eles, a expressão corrompida pela fala popular foi “esculpido e encarnado”, isso sim. O filólogo Antenor Nascentes colheu essa hipótese no primitivo gramático português Duarte Nunes de Leão e lhe deu um belo impulso em seu “Tesouro da fraseologia brasileira”. Nascentes é a fonte provável do sucesso que a tese “esculpido e encarnado” faz hoje entre praticamente todos os divulgadores da matéria, do Mário Prata do livro “Mas será o Benedito?” ao Reinaldo Pimenta de “A casa da mãe Joana”.

Se todo mundo conhece a tese “esculpido em Carrara” e um número menor – mas prestigioso – de pessoas prefere a tese “esculpido e encarnado”, pode-se afirmar com segurança que quase ninguém está familiarizado com a verdadeira origem da expressão “cuspido e escarrado”, que de corruptela não tem nada. É bem curioso esse buraco em nossa autoconsciência linguística, levando-se em conta que evidências acachapantes se oferecem a quem se dispõe a pesquisar o tema. Basta olhar em volta, para outras línguas, em vez de agir como se o mundo tivesse sido inventado na Península Ibérica.

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O primeiro registro conhecido da ligação entre o cuspe e a semelhança física ocorre no francês do século XV, segundo o Trésor de la Langue Française, com a expressão tout craché, “totalmente cuspido”. As razões dessa associação têm algo de nebuloso, mas, de acordo com o mesmo dicionário, relacionavam-se provavelmente “ao fato de que a ação de cuspir pode simbolizar o ato da geração”, numa associação simbólica entre o cuspe e a ejaculação.

O dicionário Oxford aposta numa explicação diferente (mas, no fundo, nem tanto assim) para o sucesso de uma expressão semelhante em inglês, esta do início do século XVII: spit and image (“cuspe e imagem”), que a partir do século XIX deu origem à variante spitting image. “Talvez proveniente da ideia”, anota o dicionário, “de uma pessoa ter sido criada a partir do cuspe da outra, tão grande é a semelhança entre elas.”

Se não há dúvida entre os etimologistas de que o inglês foi buscar spit and image no francês tout craché, o mesmo se pode dizer com certeza do português “cuspido e escarrado”. A contribuição lusófona a essa história se limitou a acrescentar o escarro ao cuspe, como reforço expressivo. O alcance internacional da expressão expõe a inconsistência de todas as outras hipóteses.

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