Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

A hora e o lugar do ‘sic’

“Caro Sérgio Rodrigues: em primeiro lugar, quero felicitá-lo pelo ótimo trabalho que está realizando na tua coluna Sobre Palavras. Gostaria de ler tua explicação – que sempre é muito clara e bem escrita – sobre o uso do advérbio ‘sic’ (o autor da explicação na Wikipédia divagou). Atenciosamente.” (Fábio Gomes)

O verbete da Wikipedia mencionado por Fabio tem por base um artigo de 2009 do professor gaúcho Cláudio Moreno e traz conhecimentos bastante sólidos e abrangentes sobre o uso do advérbio latino sic, que significa “assim, deste modo” e que está na origem do nosso prosaico “sim”.

Quase sempre usado em itálico e entre colchetes (às vezes, em especial na imprensa, também entre parênteses), o sic é uma arma sucinta e poderosa à disposição do autor de um texto na hora de enfatizar que está fazendo uma transcrição literal, sobretudo quando esta contém um erro gramatical ou mesmo uma opinião da qual ele discorde: “O homem disse que o produto custava ‘dez real’ [sic]”; “A ‘superioridade de Maradona sobre Pelé’ [sic] foi defendida pelo jornal argentino com um infográfico cômico”.

Consta que o sic goza de boa saúde nos discursos em que tem emprego mais técnico, como o acadêmico e o jurídico, mas acredito que, na linguagem jornalística, seu tempo áureo tenha passado – como passou o do abuso de fórmulas latinas em geral. Um bom sic ainda tem seu lugar, inclusive como elemento de zombaria, mas deve ser empregado com parcimônia. Mal usado, pode soar apenas esnobe ou arrogante, caso em que não custa nada substituí-lo por outros modos de indicar uma correção ou uma discordância.

Reproduzo abaixo um trecho da crônica sobre o sic – esta bem mais impressionista – que publiquei em meu livro “What língua is esta?”, de 2005.

*

Sempre impliquei com o sic. É bem provável que na raiz dessa antipatia esteja a ignorância que me levou, menino, não sei se por autossuficiência ou mero espírito lúdico, a tentar adivinhar o que significava aquela palavrinha enigmática, em vez de recorrer a alguma autoridade familiar ou escolar. O problema é que a coisa parecia ser de uma gratuidade absoluta. De repente, sem mais nem menos, lá vinha o sic, quase sempre grafado naquelas letras inclinadas que só muitos anos mais tarde eu aprenderia a identificar com a ideia de grifo ou itálico. Mas não ainda, não já: tudo era nebuloso, não fosse aquele um tempo em que já não se ensinava latim na escola, mas ainda se abusava de citações e outros cacoetes latinos nos textos de jornal.

No entanto, se a tarefa era dura, não me faltava perseverança. Saquei logo que o sic tinha a ver com alguma sacanagem, alguma ironia ou gozação, porque só aparecia quando o autor do texto citava outra pessoa. Fui constatando – ou mais intuindo que constatando – que o sic vinha sempre depois de um erro, um escorregão de ortografia ou gramática que, por meio dele, ficava denunciado. O sic, concluí, era uma risada, uma risada curta. Um deboche. Um dedo-duro e, ao mesmo tempo, um lava-mãos do autor. Tudo aquilo que de fato ele é. Como se vê, eu tinha partido da mais completa ignorância para decifrar o sic de cabo a rabo, dos pés à cabeça, meu único e embaraçoso erro sendo o de, talvez por influência do cartunesco hic, imaginar que sic era a representação de um soluço sarcástico. Seja lá o que isso for.

Mais tarde, claro, aprendi que ele é um advérbio latino. Que significa simplesmente “assim, deste modo”. Que por tradição é usado quando, numa citação, há a necessidade de frisar que se trata de transcrição literal, daí soar meio estranha ou ser francamente errada mesmo. Quer dizer, sic ficou sério, antipático, foi perdendo a graça.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Às segundas, quartas e quintas-feiras o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br (favor escrever “Consultório” no campo de assunto).

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Papai Sabetudo

    Antes de comentar, cito o texto do sr. Fábio Gomes (que consta do preâmbulo da matéria), que incorre num vício recorrente e inexplicável da oração com dois tratamentos: ““Caro Sérgio Rodrigues: em primeiro lugar, quero felicitá-lo pelo ótimo trabalho que está realizando na tua coluna Sobre Palavras. Gostaria de ler tua explicação…” Assim, aproveito para questioná-lo sobre se isso se trata de erro gramatical, – para mim de natureza gravíssimo, – ou de apenas uma maneira informal de se comunicar. Coisa da atualidade virtual (palavrinha infame).
    Quanto à matéria, está ótima e passei pela mesma experiência, reagindo de forma estranha, sempre que nos textos que lia, me deparava com aquela estranha palavra. Obviamente isto se deu porque iniciei muito cedo a leitura de bons livros, quer dizer, não me escapava nada, nem revistas, nem almanaques, muito comuns à época, “Seleções”, tudo que encontrava na biblioteca do meu tio rico. Me perdia dentro dela, me esquecia até da hora do almoço. E, também, porque dicionário era artigo de luxo; e não havia essa coisa fabulosa chamada Google.

    Curtir

  2. Comentado por:

    Jotabe

    Essa de SIC ser um soluço sarcástico foi brilhante. Esse blog proporciona conhecimento e humor também. Muito bom, obrigado.
    Sou eu que agradeço, Jotabe. Apareça sempre.

    Curtir

  3. Comentado por:

    Murilo

    Hahahaha!!
    Inicialmente pensava no “sic” como um soluço também.
    E mesmo depois de conhecer seu significado, sempre que leio não consigo evitar em pensar em soluço.
    Agora não consigo parar de rir por causa do soluço sarcástico, e imaginando a carinha safada do autor, enquanto vai semeando seus sics pelo texto…
    Muito boa!

    Curtir

  4. Comentado por:

    francisco koller

    O jornalista Cláudio Humberto, usa o advérbio latino, quando petistas cometem atrocidades com o Português, de forma escrita e falada. Muito engraçado.

    Curtir

  5. Comentado por:

    Daniel MM

    O sic só não dá pra ser utilizado nas transcrições dos pensamentos da Dilma. Nestes casos, devemos utilizar o “hicup”.

    Curtir

  6. Comentado por:

    Jorge Luis dos Santos

    Agradeço pelo esclarecedor artigo. Aprendi mais! Essa, talvez, fosse uma faceta simpática do cinismo que não esquecerei. Obrigado!! [sic-hic-hic]

    Curtir

  7. Comentado por:

    ronaldo

    Prezado Sergio, faz 30 anos aproximadamente, encontrei em alguma matéria escrita, (não lembro qual) a seguinte informação sobre “sic”. Dava a seguinte explicação: “sic” significa “segundo informações colhidas”. Procede ?
    Não, Ronaldo, é lenda urbana. Como bem observa o professor Moreno, tratar ‘sic’ como acrônimo pode até ser engenhoso em português, mas faltou combinar com os falantes de outras línguas que também usam o advérbio latino.

    Curtir