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Roberto Pompeu de Toledo Por Roberto Pompeu de Toledo

Inimigos íntimos

A recém-lançada biografia de Samuel Wainer tem um de seus pontos altos na ênfase que confere à relação entre o biografado e seu êmulo Carlos Lacerda

Por Roberto Pompeu de Toledo Atualizado em 23 out 2020, 18h42 - Publicado em 23 out 2020, 06h00

A recém-lançada biografia de Samuel Wainer, criador do histórico jornal Última Hora, escrita pela jornalista Karla Monteiro, tem um de seus pontos altos na ênfase que confere à relação entre o biografado e seu êmulo Carlos Lacerda. Os dois jornalistas, os dois passionais, os dois bons de briga, os dois com falhas de caráter, os dois a alternar períodos de glória e desgraça, encarnaram uma subtrama, na trama maior da história brasileira entre Getúlio Vargas e o golpe de 1964, digna de uma parceria entre Shakespeare e Freud — Shakespeare para destacar a grandiloquência do drama, Freud para sondar-lhe as origens nos desvãos das almas.

No primeiro ato da trama foram amicíssimos. O jovem Wainer frequentava o sítio dos Lacerdas em Vassouras e Lacerda convivia com a família Wainer. “Lacerda tomou-se de simpatia por ele. E Samuel podia passar horas ouvindo-o, sem se entediar”, escreve Karla Monteiro. Na revista Diretrizes, criada por Wainer em 1938, Lacerda foi um dos colaboradores. Lacerda era do Partido Comunista, Wainer não, mas também se situava na esquerda. No confuso episódio em que escreveu um artigo com críticas ao PCB e acabou expulso do partido, Lacerda foi procurar consolo, altas horas da noite, na casa em que Wainer vivia com a primeira mulher, Bluma Chafir. Segundo relato de Wainer, o amigo esmurrou e chutou a porta até acordar o casal. Quando a porta lhe foi aberta, desabou, bêbado, no chão. “Ele não parava de chorar e gemer, balbuciando sempre a mesma frase: ‘Mataram minha mãe, sou órfão’ ”, contou Wainer.

No segundo ato foram inimicíssimos. Na guerra contra a Última Hora, único título relevante a apoiar Getúlio, travada pelos outros jornais e pelos políticos da UDN como subproduto da guerra contra o presidente, Lacerda tocava o primeiro violino. Denunciava em seu jornal, a Tribuna da Imprensa, o financiamento governamental de que gozara o jornal de Wainer. Pedia uma CPI para apurar os fatos. Lembrava tenebrosas transações do passado de Wainer, como a contribuição que recebeu da Embaixada da Alemanha nazista — ele, um judeu — para Diretrizes.

“O conflito entre Samuel Wainer e Lacerda terminou com dupla derrota”

Wainer lembrava de seu lado que Maurício Lacerda, o pai de Carlos, considerava o filho como “morto”, por ter apoiado a mãe na belicosa separação entre Maurício e a mulher. “Tudo nele é falso”, escreveu Wainer sobre o ex-amigo, “desde o seu cristianismo ao seu anticomunismo, do seu oposicionismo à sua ética profissional”. O mais certeiro golpe contra Wainer veio na manchete do Diário de São Paulo: “Nasceu na Bessarábia!”. Até então, Wainer dizia ter nascido em São Paulo, não nessa região do Império Russo (hoje da Moldávia). A notícia, segundo o livro de Karla Monteiro, só pode ter vindo de Lacerda, que conhecia a família na intimidade. Não sendo brasileiro nato, Wainer não poderia ser dono de jornal.

A CPI, transmitida ao vivo na TV, grande novidade naquele ano de 1953, levou a Última Hora e seu dono ao chão. Getúlio, pressionado, retirou o apoio financeiro aos empreendimentos de Wainer, e os anunciantes debandaram. Nelson Rodrigues, um dos colunistas-estrelas do jornal, escreveu: “Meu Deus, podem pendurar um sujeito numa forca ou crivá-lo de balas, ou be­ber-lhe o sangue como groselha. Mas ninguém tem direito de fazer o que a CPI fez com Samuel Wainer”. Aí veio o espetacular suicídio de Getúlio e a maré virou. Nelson Rodrigues escreveu, no dia seguinte ao suicídio: “Ele (Getúlio) apertou o gatilho e, antes que morresse o som do tiro, Carlos Lacerda caía, lá de cima, do alto de sua ambição cesariana. Sim, Lacerda estava à beira da onipotência e subitamente a perdia. (…) A mesma unanimidade que pedira a cabeça de Samuel Wainer agora queria beber o sangue de Carlos Lacerda. Carlos Lacerda era o assassino de um suicida”.

O livro de Karla Monteiro (Samuel Wainer — O homem que Estava Lá, editado pela Companhia das Letras), bem pesquisado e de leitura fluente, nos lembra que períodos de polarização são tão velhos quanto a política. O de 1954 foi tão agudo que até produziu um ilustre cadáver. O comentário de Nelson Rodrigues, tão mais brilhante quanto disparado à queima-roupa, a poucas horas do trágico evento, espelha o Júlio César, de Shakespeare, em que o discurso de Marco Antônio, diante do cadáver de César, leva a multidão, antes anticesarista, a mudar de lado. O conflito entre Wainer e Lacerda vai até 1964 e um pouco além, e termina com dupla derrota. Lacerda apoiou o golpe, mas foi engolido pela ditadura subsequente. Wainer perdeu a Última Hora, acumulou dívidas, conheceu o exílio e morreu pobre.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

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