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Ricardo Rangel

O maremoto e o capitão

Uma coisa é certa: 2022 não será um ano fácil para Jair Bolsonaro

Por Ricardo Rangel Atualizado em 29 out 2021, 10h00 - Publicado em 29 out 2021, 06h00

Com 19 milhões de brasileiros com fome, não se discute que a renovação do auxílio emergencial é necessária. Também não se discute de onde o dinheiro deveria vir: das emendas do orçamento secreto que Arthur Lira e Ciro Nogueira pilotam. Mas Bolsonaro, temendo desagradar ao Centrão, que o mantém na cadeira, achou que furar o teto era uma boa alternativa. A PEC dos Precatórios, turbinada com o jabuti do auxílio, criará um rombo de até 95 bilhões de reais.

A proposta nem foi aprovada ainda, mas o estrago já está feito: dólar, juros e inflação muito mais altos do que o previsto. O presidente dará com uma mão, tirará com a outra e enfrentará uma campanha eleitoral com a crise econômica muito agravada.

Não há sequer garantia de que a proposta será aprovada. Noves fora o permanente interesse dos parlamentares em abrir espaço para as emendas de relator (até porque é ano eleitoral), uma emenda constitucional exige dois terços dos votos no Congresso, a oposição busca caminhos para barrar, o Senado nunca dá vida fácil ao presidente e Rodrigo Pacheco é candidato ao Planalto.

Não está claro o quanto Bolsonaro ganhará com um auxílio conseguido em troca de sacrificar o teto. Segundo pesquisa recente da Genial/Quaest, a medida é controversa: 44% são contra e 42%, a favor, e agrada aos bolsonaristas e desagrada aos antibolsonaristas na mesma proporção. Bolsonaro pode ter criado sérias dificuldades econômicas para si mesmo em troca de nada.

“Não está claro o quanto o presidente ganhará com um auxílio conseguido em troca de sacrificar o teto”

O relatório da CPI joga ainda mais lenha na fogueira. Augusto Aras não pode se fingir de morto (como Arthur Lira, olimpicamente, fará): ele tem trinta dias para informar que medidas tomou. É de esperar que proteja Bolsonaro e, para reduzir a pressão, investigue e denuncie outros. O assunto estará no noticiário, mantendo pressão contínua sobre Bolsonaro, durante toda a campanha eleitoral. E se Aras acabar por denunciar o presidente, o que não é impossível, aí o desgaste é incomensurável.

Na frente digital, o projeto de lei das fake news, a ser aprovado em breve, cria sérios entraves para a principal ferramenta eleitoral bolsonarista: a desinformação. As redes serão reguladas, e aquelas que não operam no Brasil — como o Telegram, favorito dos bolsonaristas — podem até ser banidas. Antes mesmo da promulgação da nova lei, a insistência nas fake news golpistas vem ficando mais cara. Allan dos Santos está sendo procurado pela Interpol e Zé Trovão acaba de se entregar à PF; vão fazer companhia a Roberto Jefferson e Daniel Silveira (leia a reportagem na pág. 30).

Até o panorama externo pode trazer dificuldades para Bolsonaro. O Brasil vai à COP26, uma conferência ambiental, com a insana proposta de aumentar as emissões de carbono: depois desse vexame, o risco de sanções comerciais internacionais aumentará significativamente. Somem-se a isso as dificuldades para exportar carne para a China, que não estão resolvidas. O agronegócio é um dos redutos do bolsonarismo, e a queda repentina na exportação pode afetar diretamente a sua popularidade (sem falar dos problemas de praxe: queda no crescimento e na arrecadação, alta do dólar e da inflação). Em um cenário de muita incerteza, uma coisa é certa: 2022 não vai ser um ano fácil para Jair Bolsonaro.

Publicado em VEJA de 3 de novembro de 2021, edição nº 2762

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