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Ricardo Rangel

O fator Moro

O ex-ministro tirará votos tanto de Jair Bolsonaro quanto do centro

Por Ricardo Rangel Atualizado em 26 nov 2021, 08h02 - Publicado em 26 nov 2021, 06h00

Sergio Moro lançou sua candidatura há apenas duas semanas e já há pesquisas indicando que chegou aos dois dígitos nas intenções de voto. Não está claro a que patamar Moro chegará, mas é certo que ainda tem bastante espaço para crescer. Também é certo que tirará votos tanto de Jair Bolsonaro quanto do centro. Se tirar mais votos do centro, inviabiliza a terceira via e entrega o segundo turno ao capitão; se tirar mais votos à direita, inviabiliza o capitão e vai disputar a Presidência com Lula.

Moro precisa ter um discurso de direita o suficiente para tomar votos de Bolsonaro — o que explica, por exemplo, o convite ao senador Marcos do Val, que defende excludente de ilicitude (ou seja, licença para a polícia matar) e foi participante eventual da tropa de choque de Bolsonaro na CPI da Pandemia, para colaborar na área de segurança. Mas, ao mesmo tempo, Moro tem de mostrar moderação, senão não consegue votos ao centro e perde no segundo turno — por isso vem falando de injustiça social, educação, desmatamento. É um equilíbrio delicado.

À medida que a candidatura de Moro se consolida, a necessidade de ter um nome único para derrotar Bolsonaro fecha o espaço para outros candidatos. O PSDB, com a debacle das prévias, está em guerra fratricida, e não se sabe direito qual será o destino de seu candidato ou se ele conseguirá unir o partido. Ciro Gomes nunca foi competitivo — a direita não vota nele, a esquerda prefere Lula, os liberais torcem o nariz a seu desenvolvimentismo — e, com a presença de Moro, está emparedado. Outros candidatos tendem a ser abandonados por seus próprios partidos.

“Bolsonaristas e petistas deixarão ataques mútuos de lado para lançar sobre o ex-juiz um bombardeio digital”

Moro não perde por esperar: bolsonaristas e petistas deixarão os ataques mútuos de lado para lançar sobre o ex-juiz um violento bombardeio digital. Não está claro, no entanto, quão eficaz será a artilharia. Afinal não há muita munição: Bolsonaro vai acusar Moro de traição, mas todos sabem que quem traiu suas promessas foi o presidente; Lula vai dizer que Moro torceu a lei (o que é verdade) para pô-lo na cadeia, mas só o núcleo duro do lulismo acredita que Lula é inocente. A artilharia pode sair pela culatra e acabar ajudando a divulgar o nome de Moro.

Se jogar suas cartas bem, Moro pode arrebanhar os votos dos bolsonaristas arrependidos, os da direita que nunca gostou de Bolsonaro e mesmo os dos eleitores de centro (e de esquerda) que estavam dispostos a votar até em Lula para impedir a reeleição do atual presidente. Se conseguir isso, Moro tira o capitão do jogo e vai enfrentar Lula.

No segundo turno, ninguém sabe o que acontecerá. Lula é um candidato muito mais forte do que Fernando Haddad, ainda mais agora, que teve suas sentenças anuladas; por outro lado, Moro é um candidato muito mais palatável e competitivo do que Bolsonaro. É provável que o vencedor seja aquele que estabelecer pontes com o centro e apresentar uma agenda moderada e economicamente sensata.

Defender ditadores, atacar a responsabilidade fiscal e esnobar o centro, como Lula vem fazendo, pode não ser uma boa ideia.

Publicado em VEJA de 1 de dezembro de 2021, edição nº 2766

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