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Ricardo Rangel

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Circo dos horrores

Um ministério profissional, técnico e competente

Por Ricardo Rangel Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 Maio 2020, 16h33 • Atualizado em 24 Maio 2020, 09h27
  • Como bala de prata para enterrar Jair Bolsonaro, o vídeo da reunião desapontou, e os bolsonaristas podem comemorar: não será desta vez ainda que o presidente cairá.

    Mas, como mais uma evidência (entre inúmeras) de interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, o vídeo é muito eloquente. Em uma reunião que deveria ser sobre a pandemia e o plano para combater a recessão dela decorrente, a principal preocupação do presidente eram as informações que achava que deveria receber — e não recebia. E ficou claro que não se referia a informações sobre saúde, economia ou o que seja, mas a informações policiais, e sigilosas, sobre sua família e seus amigos.

    É impossível que Bolsonaro estivesse falando de sua segurança pessoal, pois disse que não conseguiu substituir o responsável pela “segurança” no Rio de Janeiro, e está provado que tinha acabado de substituir o chefe da segurança pessoal no Rio.. Fica evidente sua irritação com Moro, a quem ameaçou abertamente e para quem mandou diversas indiretas. E o presidente informou que detém um sistema de informações pessoal (o que, por si só, é material para impeachment).

    Afora a questão da interferência na PF, o vídeo, especialmente se visto do início ao fim, é escabroso. É Bolsonaro em estado bruto, e no atacado: um presidente egocêntrico e acafajestado; que sofre de delírio persecutório; que não compreende seu papel; que confunde o público com o privado, o governo com o Estado, subordinados com servos.

    E que não diz coisa com coisa: defende a liberdade ao mesmo tempo que quer determinar o que seus auxiliares devem fazer; defende liberdade de expressão ao mesmo tempo em que ataca a imprensa; quer armar o povo para que resista à “ditadura”; defende a democracia ao mesmo tempo em que chama governadores e prefeitos eleitos de “bosta” e “estrume” e ataca os demais Poderes. Tudo isso em meio a uma saraivada de palavrões e palavras inadequadas. Pela pandemia — que tem potencial para arrancá-lo do cargo e jogar o país em uma depressão econômica — não demonstra qualquer interesse.

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    O desempenho dos demais não foi muito melhor do que o do presidente, e, no geral, resumiu-se a falar bem de si mesmos, chorar misérias e bajular o chefe. Lorenzoni disse que chegamos ao “paroxismo da histeria” no que se referia à Covid-19. Damares defendeu a prisão de governadores e prefeitos que promovam o isolamento. Nelson Teich repetiu as platitudes pelas quais se tornaria conhecido e disse que, dos países afetados, o país “está entre os que têm as menores mortandades”. Rubem Novaes, presidente do Banco do Brasil, se lamuriou pela perda dos privilégios que o banco teve no passado, e disse ter a “impressão” de que o pico da pandemia “já passou”.

    Tarcísio de Freitas comparou Bolsonaro a Churchill e Roosevelt. Abraham Weintraub promoveu um ritual de autopiedade, deu profunda profissão de fé no bolsonarismo, e pediu a prisão de “vagabundos” como os ministros do STF. Pedro Guimarães, presidente da Caixa, disse que pegaria suas “15 armas” para “matar ou morrer” tentando impedir sua mulher e sua filha de serem presas pela PM do Rio. Ricardo Salles recomendou aproveitar a pandemia para escapar do escrutínio da opinião pública e aprovar regulamentos impopulares e possivelmente ilegais.

    Ninguém se saiu pior do que Paulo Guedes. Supostamente o ministro mais inteligente, técnico e preparado: em nada contribuiu, exceto pelo festival de autoelogios e de bajulação a Bolsonaro, e emulou o chefe ao recorrer a muitos palavrões de baixíssimo calão.

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    Entre o momento em que os ministros faziam de conta que a pandemia era uma “gripezinha” e hoje, um mês depois, saímos de menos de três mil mortos para mais de vinte mil, e nos tornamos o epicentro mundial da doença.

    Poucos se salvaram. Rogério Marinho foi o único a ousar contrariar o chefe e os pares ao dizer que não acredita em teoria da conspiração, que a pandemia é, sim, a maior catástrofe que se abateu sobre o mundo nos últimos 100 anos e que, em situações extraordinárias, como é o caso, não devemos nos aferrar a dogmas (referia-se a Guedes, que não quer abrir a burra do dinheiro). Moro lembrou a importância de o plano levar em conta a área de segurança. Roberto Campos Neto fez um alerta curto e sóbrio sobre os riscos da irresponsabilidade fiscal. Tereza Cristina falou sobre a importância do trigo.

    Hamilton Mourão passou quase o tempo todo consternado — exceto nos momentos em que Bolsonaro disse coisas particularmente estapafúrdias, quando o vice teve que se esforçar para não rir. Mourão, aliás, teve a oportunidade de verificar quais ministros, caso a presidência lhe caia no colo, deve manter e quais deve dispensar (pelo que se viu, não fica quase ninguém).

    Como esforço conjugado para criar uma resposta à recessão econômica, a reunião foi um desastre. Sua única serventia foi mostrar ao país do que Jair Bolsonaro está falando quando diz que nomeou um ministério de profissionais “técnicos” e “competentes”.

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