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Ricardo Rangel

Caiu como um viaduto

O risco de golpe não é delírio de alarmistas: ele é real e imediato

Por Ricardo Rangel - Atualizado em 5 jun 2020, 13h20 - Publicado em 5 jun 2020, 06h00

Nos próximos meses, o aumento no número de mortes, o aprofundamento da recessão e eventuais escândalos de corrupção ligados ao Centrão devem se combinar para reduzir significativamente a popularidade de Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, as investigações em curso devem revelar fatos muito comprometedores para o presidente. A junção desses fatores tende a ser desestabilizadora, levando, possivelmente, a um impeachment ou a um processo no STF.

Assombrado pelo espectro da queda, Bolsonaro confronta e desafia o Supremo com declarações ameaçadoras como “acabou, porra!” e “ordem absurda não se cumpre”, cortejando o impasse institucional. Aposta que, no impasse, os militares virarão a mesa e garantirão sua permanência na cadeira de presidente.

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A aposta se baseia no fato de que o presidente é o “chefe supremo” das Forças Armadas, mas também na cooptação dos militares: Bolsonaro bajulou-­os, protegeu-os na reforma da Previdência, deu-lhes plano de carreira e aumento de salário, compareceu a todo tipo de cerimônia, nomeou milhares de oficiais, e entregou o dia a dia do governo a generais.

Mas, dizíamos a nós mesmos, é ridículo falar em golpe porque a “democracia brasileira está consolidada”, “as Forças Armadas respeitam a democracia e a Constituição”. Quarteladas são coisas do século passado.

“Assombrado pelo espectro da queda, Bolsonaro faz ameaças e corteja o impasse institucional”

Antes fossem. Os generais Heleno e Ramos frequentam atos golpistas; Ramos adverte ministros do STF e arroga às Forças Armadas o papel de “guardiãs da Constituição”; Heleno solta nota com a ameaça de “consequências imprevisíveis”; o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, apoia a nota de Heleno e sobrevoa manifestação golpista; o general Braga Netto atua como factótum do presidente; o general Mourão assina artigos em que chama o decano do STF de “irresponsável” e “intelectualmente desonesto”, e faz críticas pesadas ao Supremo, ao Congresso, à imprensa, à oposição — mas silencia sobre os abusos do presidente. Os generais da ativa (com exceção de Ramos) não falam, mas os relatos não tranquilizam.

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Indagados, os generais negam o golpismo e reafirmam o compromisso com a democracia — enquanto reiteram que o golpe de 1964 salvou a democracia. Como dizia o então deputado Jair Bolsonaro: “Quem pretende dar golpe não avisa que vai dar”.

Demorou, mas a ficha caiu para os brasileiros. E caiu como um viaduto. A ameaça do golpe não é delírio de alarmistas: ela é real e imediata.

A reação foi rápida: o STF se uniu em torno de Alexandre de Moraes; Celso de Mello advertiu que desobediência à ordem judicial é crime; Ricardo Lewandowski, a OAB e juristas esclareceram que o artigo 142 da Constituição não ampara a tese golpista de que cabe às Forças Armadas arbitrar conflitos entre poderes; Rodrigo Maia e outros parlamentares apoiaram o Supremo; jornalistas e personalidades denunciaram o golpe; movimentos pela democracia obtiveram milhares de assinaturas.

Se apoiarem o golpe, os militares jogarão na lama a boa imagem que demoraram 35 anos para construir e serão vistos como traidores da pátria — e, dada à mobilização da sociedade, fracassarão. Felizmente.

Publicado em VEJA de 10 de junho de 2020, edição nº 2690

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