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Ricardo Rangel

A canoa e o tripé

Os militares não têm o dever de salvar o governo

Por Ricardo Rangel - Atualizado em 22 May 2020, 11h31 - Publicado em 22 May 2020, 06h00

Para provar que era amigo do mercado e obter o apoio dos empresários, Bolsonaro, o estatista que acreditava em Estado grande e intervencionista, que sempre lutou por privilégios para corporações que se locupletam do Estado há décadas, foi buscar Paulo Guedes, que embarcou em uma canoa que deveria saber furada.

Para provar que era inimigo da corrupção e obter o apoio da classe média, o deputado que, em sete mandatos, pertenceu a oito partidos diferentes, todos de aluguel, adepto das práticas da baixa política, amigo de milicianos, foi buscar Sergio Moro, que embarcou em uma canoa que deveria saber furada.

Para obter o apoio das Forças Armadas, o oficial de baixa patente, despreparado, agressivo e falastrão, condenado por insubordinação e indisciplina, e enxotado da corporação, foi buscar legitimidade em uma fieira de generais, que embarcaram em uma canoa que deveriam saber furada.

Tal tripé não podia mesmo dar certo.

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Bolsonaro fez Moro reverter uma nomeação, tomou-lhe o Coaf, forçou-o a substituir um superintendente da Polícia Federal, esnobou o projeto contra a corrupção, e mais. Moro fingiu que não viu, tentou negociar, e por fim abandonou a canoa para salvar o prestígio que restava. Foi-se um pé.

A imagem das Forças Armadas é um patrimônio inestimável, mas sua lealdade maior é com o país

O presidente desautorizou Guedes, interferiu em seu ministério, sabotou seus projetos, e, com o Centrão, enterra de vez a agenda econômica. Se Guedes fica, vira um dois de paus e se desmoraliza; se sai, é acusado de traidor e se desmoraliza (Mandetta pode lhe ensinar a sair da canoa sem se afogar). Vai-­se outro pé.

O terceiro pé não vê o risco que corre. A atitude de Bolsonaro sobre a Covid-19 é catastrófica, talvez criminosa. Os ataques a governadores, Congresso e STF são crime de responsabilidade. O presidente é alvo de duas investigações criminais, e vai sofrer estilhaços de outras três. Tem contra si mais de trinta pedidos de impeachment.

Mas os militares apoiam Bolsonaro. Aprovaram a demissão de Mandetta, Braga Netto é chefe do gabinete (inexistente) de crise, Ramos reclama que a imprensa só fala de “cova e corpo”. Na Saúde, militares aprovam a mudança no protocolo da cloroquina. Heleno e Ramos (e mais quatro ministros militares) compareceram a um comício golpista e contra o isolamento. Ramos negocia o apoio do Centrão em troca de cargos e verbas, Braga Netto assina as nomeações. Corroboraram a tese de que Bolsonaro — contra todas as evidências — não falava da PF, mas de sua segurança pessoal.

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Nos últimos 35 anos, as Forças Armadas vêm tendo uma conduta irrepreensível, merecedora da admiração e do reconhecimento dos brasileiros: a imagem que construíram é um patrimônio inestimável. Há muitos oficiais, como os generais Pujol, Santa Rosa ou Santos Cruz, que certamente reprovam a conduta do presidente e dos colegas de farda. Mas a imagem das FFAA depende de quem fala e age, não de quem está em silêncio.

Os militares precisam entender que no governo, que é civil, não devem obediência cega ao comandante supremo das Forças Armadas, nem é seu dever salvar o governo: sua lealdade maior é com o país. É hora de desembarcar da canoa furada.

Publicado em VEJA de 27 de maio de 2020, edição nº 2688

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