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‘Fogo e morte outra vez’, estampava a capa de VEJA em 1974

Na década de 1970, dois grandes incêndios assustaram a população paulistana: o do edifício Andraus, em 1972, e o do Joelma, em 1974

“Esses momentos na vida das cidades e o surgimento de um tipo de pessoas que arrisca a vida num dia para ficar encabulado na manhã seguinte quando começa a caça aos heróis é talvez a fonte que provoca, em toda a população, a radiante sensação de confiança e segurança exatamente por viver naquela comunidade. Por isso, quando a manhã de sexta-feira começou, as primeiras crianças a sair às ruas brincavam de bombeiros.”

Assim terminava a reportagem “A cidade venceu o fogo”, na edição 182 de VEJA, de 1º de março de 1972, que descrevia o incêndio no edifício Andraus, no centro de São Paulo, até então o pior já enfrentado pela capital paulista.

Mas a cidade não havia vencido o fogo. Quase dois anos depois, o mesmo texto que finalizava a matéria de 1972 estava na Carta ao Leitor de 6 de fevereiro de 1974. Naquela edição da revista, a capa trazia uma foto do edifício Joelma, também no centro de São Paulo, com a chamada “Fogo e morte outra vez”.

Capa da Revista VEJA de 6/2/1974, sobre o incêndio no Edifício Joelma Capa de VEJA de 6 de fevereiro de 1974, sobre o incêndio no Edifício Joelma

Capa de VEJA de 6 de fevereiro de 1974, sobre o incêndio no Edifício Joelma (VEJA/VEJA)

Nesta semana, os paulistanos viram novamente as cenas de chamas consumindo andares de um prédio no meio de São Paulo, com o agravante de que o fogo foi seguido pelo desmoronamento da construção envidraçada. Em poucas horas, o edifício Wilton Paes, no Largo do Paissandu, desapareceu do horizonte, deixando uma pilha de escombros e, até agora, pelo menos quatro desaparecidos, segundo o Corpo de Bombeiros.

Em 1972, o incêndio do Andraus deixou 17 mortos e 376 feridos. “Em pouco tempo passaram pela porta de acesso ao heliporto centenas de homens e mulheres que minutos antes se empurravam e pisoteavam pelas escadas. No terraço, a altura das chamas e o pânico dos que chegavam geraram as reações mais descontroladas. Três pessoas atiraram-se, acreditando que as labaredas acabariam envolvendo a pequena multidão que se movia no topo do prédio, de um lado para o outro, boiando no medo”, relatava o texto. A suspeita é que as chamas começaram por uma sobrecarga da rede elétrica.

Cerca de 300 pessoas que se abrigaram no terraço do prédio foram salvas. Aeronaves se revezavam embarcando as vítimas: “Primeiro os helicópteros lançaram leite e pediram calma. Depois, pularam os policiais e bombeiros que controlaram o pânico com cordas e palavras e, finalmente, começaram a embarcar os primeiros feridos. Cada helicóptero que pousava em terrenos vizinhos era cercado de ambulâncias que removiam os feridos. Cinco horas depois, o terraço do edifício estava completamente vazio”, relatava a legenda das fotos impressionantes da reportagem, que descreveria ainda atos de desespero e heroísmo por parte das vítimas e de seus salvadores.

Matéria da Revista VEJA de 1/3/1972, sobre o incêndio no Edifício Andraus Reportagem de VEJA de 1º de março de 1972, sobre o incêndio no Edifício Andraus

Reportagem de VEJA de 1º de março de 1972, sobre o incêndio no Edifício Andraus (VEJA/VEJA)

A tragédia do Joelma foi ainda pior. Ao todo, 188 pessoas morreram e cerca de 300 ficaram feridas em seis horas e meia de incêndio. Sem heliponto, o terraço do edifício, desta vez, não foi garantia de sobrevivência. Dezenas morreram no teto do prédio devido ao calor e à fumaça. Mesmo assim, apesar das condições de salvamento difíceis, cerca de 100 pessoas foram retiradas do edifício por ali.

“Desesperadas, mais de 20 pessoas atiraram-se do prédio antes que os bombeiros pudessem realizar a operação de salvamento. Na calçada, um padre atendia aos agonizantes enquanto os corpos eram enviados ao IML”, trazia a legenda de uma das fotos.

Inaugurado apenas dois anos antes, o Joelma pegou fogo por causa de um problema num ar-condicionado, relatou uma das sobreviventes. Questionado, o então prefeito da cidade, Miguel Colasuonno, afirmou: “Realisticamente falando, o bom senso diz que temos que acelerar as medidas preventivas em edifícios novos e esperar que a população tenha mais humanidade e tome medidas por conta própria sem ser obrigada por lei”.

Na realidade, humanidade foi o que não faltou aos paulistanos. O Hospital das Clínicas teve fila de gente para doar sangue às vítimas. “O ministro Mário Machado de Lemos, da Saúde, não escondeu a sua surpresa ao verificar que havia recursos mais do que suficientes para atender a todos os feridos. Na verdade, até mesmo os doadores de sangue poderiam ser dispensados, mas a direção aproveitou a disposição popular para formar grandes estoques”, dizia a reportagem.

Nesta semana, a parte da população se uniu novamente. Desta vez, para levar doações de roupas, água e alimentos para os centenas de desabrigados do edifício Wilton Paes.

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