TSE quer as delações da Odebrecht. Para Temer, significa o quê? | VEJA
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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

TSE quer as delações da Odebrecht. Para Temer, significa o quê?

Significa que haverá uma acusação direta contra ele; mas a decisão de Herman Benjamin também retarda em muito o processo. Então vamos pensar

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 23 fev 2017, 22h25 - Publicado em 22 fev 2017, 17h11

Vamos lá. Se lhe fosse dado escolher, você está entre os que torcem para que Michel Temer seja cassado pelo TSE o mais rápido possível, o que ensejaria eleição indireta para substituí-lo, ou se alinharia entre aqueles que preferem que termine o mandato? Sim, estamos todos de acordo que a lei tem de ser cumprida. E pronto! Isso nada tem a ver com desejar uma coisa ou outra. Sempre que o Corinthians joga, mesmo quando está na pindaíba, eu penso: “Tomara que ganhe”. Se vai ganhar ou tem condições para isso, bem, aí são outros quinhentos.

Os que pretendem que Temer se vá e que Temer fique — sim, quero que fique; não sou nem esquerdista nem direitista xucro — têm agora um elemento novo, uma nova aposta a fazer. Essa é a hora em que os especuladores se agitam: “Oba! Vamos tomar mais um dinheiro dos trouxas espalhando o pânico e o fim do mundo”.

Por que isso? Herman Benjamin, relator da ação que investiga a chapa Dilma-Temer, decidiu que as delações da Odebrecht serão incluídas no processo. E isso significa que os delatores terão de ser ouvidos. “Ah, mas quais?” Bem, só se conhecem alguns conteúdos, não é? Vai saber. Até onde se sabe, o esquema azeitava o conjunto da obra. Dá para separar com precisão o dinheiro que ia para campanha do que não ia? O TSE pretende ouvir todos os delatores?

Entre eles, sim, está Cláudio Mello Filho, aquele que diz que a empresa acertou, num jantar no Palácio do Jaburu, uma doação de R$ 10 milhões ao PMDB. Teria sido a pedido de Temer. O delator diz que foi dinheiro por fora. O PMDB diz que foi dentro. Há, com efeito, o registro de uma doação da empresa nesse valor.

Submetida a questão à máxima objetividade, pode-se perguntar: essa decisão de Benjamin é boa ou ruim para Temer? Quem deve ficar mais contente? Quem quer que ele fique ou quem quer que ele vá? Vamos ver.

É claro que a inclusão das delações da Odebrecht vai atrasar o processo. “Ah, mas elas são necessárias?” Entendo que, se essas são, por que não as outras todas? Mas o ministro Benjamin certamente não quer que o fedor do bueiro da direita xucra o colha. Ao incluir as delações da empreiteira, vai-se dizer: “Eis um homem de coragem”.

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Mas a coisa vai longe. Ouvir delatores, como ele pretende fazer, obriga, por determinação processual, a convocar também o contraditório, não? Aqueles que vão contestar as acusações feitas. O processo deve se arrastar para o ano que vem.

Mas e a acusação contra Temer? Bem, terá de ser avaliada, claro!

Tendo a achar que, quanto mais se posterga o julgamento — e é o que vai acontecer com a inclusão das delações da Odebrecht —, mais improvável se torna a cassação da chapa. Imaginem isso, sei lá, no segundo semestre de 2018…

Qual é a minha prefiguração? Esta aqui, ó: o ministro Herman Benjamin não antecipou voto para ninguém, claro!, mas já disse a interlocutores que vai botar pra quebrar. E eu entendi que isso quer dizer fazer um voto a favor da cassação da chapa. Se o fizer, sai com a fama de rigoroso, daquele que não deixa pedra sobre pedra, mas um rigor que, quando se olha o calendário, conduz à não cassação da chapa.

E, assim, salvam-se todos. Temer conclui o mandato — se Deus quiser!, ou vem o caos —, Benjamin ganha a medalha do rigor jurídico, e é provável que ministros do TSE que se deem conta da gravidade da situação e atuem com responsabilidade figurem como vilões nas redes sociais.

O mundo não é plano.

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