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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Sobra loucura e falta método na fala de Dilma; em entrevista à Folha, volta a misturar delação com tortura e desafia: “Não vou cair; venha tentar, venha tentar!”

Polônio, personagem de Shakespeare, via método na loucura de Hamlet, o príncipe destrambelhado. Já fui tentado a apontar certo rigor nas maluquices que Dilma anda dizendo ultimamente. Mas desisti. O conjunto simplesmente não faz sentido e reflete os descaminhos de quem, afinal de contas, não sabe para onde vai nem o que virá. O discurso […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 00h59 - Publicado em 7 jul 2015, 08h11

Polônio, personagem de Shakespeare, via método na loucura de Hamlet, o príncipe destrambelhado. Já fui tentado a apontar certo rigor nas maluquices que Dilma anda dizendo ultimamente. Mas desisti. O conjunto simplesmente não faz sentido e reflete os descaminhos de quem, afinal de contas, não sabe para onde vai nem o que virá. O discurso sobre o papel fundador da mandioca na civilização brasileira entrará como emblema jocoso de um momento em que o país raspa o chão. Há quatro dias, foi a vez de ela fazer poesia com a tocha olímpica, que, segundo disse, “é muito bonita, é verdadeiramente fantástica e vai ser sentida em vários municípios, desde a distante Amazônia, passando pelo Centro-Oeste, até São Paulo, Rio de Janeiro…” Santa Bárbara!!!

Nesse discurso, afirmou que “dentre todos os processos tecnológicos que a humanidade criou, destacam-se a cooperação e o fogo”. O que quer dizer? Nem Prometeu, que roubou do Olimpo o fogo para dar aos homens, seria capaz de explicar. Como diz uma amiga, Dilma anda lendo antropologia antes de dormir. Na melhor das hipóteses. Confesso que intuí ser em outro momento… Adiante. A presidente concedeu uma entrevista à Folha, que está na edição desta terça. A coisa não está bem.

Dilma voltou a atacar a Lei 12.850, que ela própria sancionou em agosto de 2013, que trata da delação premiada. Mais uma vez, associou as práticas hoje em curso com o período do regime militar. Reproduzo a sua fala ao jornal: “Eu conheço interrogatórios. Sei do que se trata. Eu acreditava no que estava fazendo e vi muita gente falar coisa que não queria nem devia. Não gosto de delatores. Não gosto desse tipo de prática. Não gosto. Acho que a pessoa, quando faz, faz fragilizadíssima. Eu vi gente muito fragilizada [falar]. Eu não sei qual é a reação de uma pessoa que fica presa, longe dos seus, e o que ela fala. E como ela fala. Todos nós temos limites. Nenhum de nós é super-homem ou supermulher. Mas acho ruim a instituição, entendeu? Transformar alguém em delator é fogo”.

Vocês sabem que tenho, sim, muitas restrições à Operação Lava Jato e que acho que não se está cumprindo rigorosamente a lei em muitos aspectos, mas a associação que Dilma faz é estupefaciente. Até porque a Polícia Federal é um órgão funcionalmente subordinado ao Ministério da Justiça. Uma coisa é apontar eventuais atropelos à ordem legal, e há; outra, distante, é tratar o que está em curso como atos de exceção de uma ditadura. Se fossem, tratar-se-ia, então, de um ditadura sob a égide do PT.

Num dado momento, afirma um entrevistador da Folha: “Parece que está todo mundo querendo derrubar a senhora”. E Dilma responde:
“O que você quer que eu faça? Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou. Isso é moleza, isso é luta política. As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não estou. Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar. Se tem uma coisa que eu não tenho medo é disso. Não conte que eu vou ficar nervosa, com medo. Não me aterrorizam.”

É uma fala de vários modos imprudente. Em primeiro lugar, ela não vai cair se não houver lei que a derrube. E não se deve afirmar: “Venha tentar, venha tentar”. Quem é o sujeito oculto da frase? Que “você” é esse ao qual Dilma está se referindo? Ela está desafiando a Justiça? Ela está desafiando o Congresso?

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Não houvesse temor, não teria convocado uma reunião de emergência com presidentes e líderes de partidos da base, como fez nesta segunda, exortando a todos a defender o governo. Os próprios convocados chamaram o encontro de “reunião anti-impeachment”. Ali se disse que o governo não cometeu ilegalidade nenhuma nas contas em 2014, embora um dos convidados tenha confessado que, hoje, há a avaliação de que o TCU vai, sim, recomendar a rejeição. A presidente tem até o dia 21 para prestar esclarecimentos. Se o tribunal recusar as contas e se o parecer for endossado pelo Congresso, abre-se o caminho para a denúncia por crime de responsabilidade.

Situação igualmente grave é a vivida no TSE, que apura se a campanha de Dilma usou recursos ilegais. No âmbito da delação premiada, homologada pelo STF, o empreiteiro Ricardo Pessoa disse ter repassado R$ 7,5 milhões oriundos do propinoduto da Petrobras para a campanha à reeleição da presidente. E aí? O TSE já cassou mandato por muito menos. Dilma sabe muito bem que está na corda bamba, não é? Se o STF homologou a delação de Pessoa, será que o TSE pode simplesmente ignorar o que diz? Comprovada a doação ilegal, a presidente pode ter cassada a sua diplomação — isto é, perder o mandato. Então conviria que ela deixasse para a lei resolver a questão.

Uma resposta de Dilma não deixa de ter um tom intrigante. Os entrevistadores perguntam o que acontecerá se resolverem mexer com a sua biografia. Ela responde:
“Ô, querida, e vão mexer como? Vão reescrever? Vão provar que algum dia peguei um tostão? Vão? Quero ver algum deles provar. Todo mundo neste país sabe que não. Quando eles corrompem, eles sabem quem é corrompido.”

Duas observações relevantes. A lei não pune apenas quem rouba para si, para o enriquecimento pessoal. O roubo que financia um partido é também criminoso. Logo, Dilma não precisa ter enchido os bolsos de dinheiro. Basta que se demonstre que Pessoa fala a verdade, e ela cai. De acordo com a lei. O segundo ponto: diz ela que, “quando eles corrompem, eles sabem quem é corrompido”.

A presidente tem alguma sugestão?

Dilma perdeu mais uma chance de ficar calada. Quando um presidente da República diz “não vou cair”, é porque sabe que cresceu enormemente a chance de… cair. E a sua biografia de ex-militante de um grupo terrorista não tem nada com isso. Pode perder o mandato por lambança fiscal ou por lambança eleitoral. Ainda não é o pior dos mundos. Se Rodrigo Janot não fosse tão generoso, poderia ser por causa dos descalabros na Petrobras.

Presidente, está sobrando loucura e faltando método.

Texto publicado originalmente às 5h59
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