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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

SE O CARA NÃO LUCRAR VENDENDO COCAÍNA, VAI LUCRAR ENFIANDO O TRABUCO NA SUA CARA SE ESTIVER SOLTO

Eu sei qual é a crítica mais freqüente que algumas pessoas fazem a meus textos — sei porque elas me são enviadas, não? Uma boa síntese poderia ser esta: escrevo sobre muitos assuntos e me atrevo a dar opinião sobre qualquer coisa, não me atendo, como a grande maioria, a uma área — política, economia, […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 16h34 - Publicado em 26 out 2009, 03h39

Eu sei qual é a crítica mais freqüente que algumas pessoas fazem a meus textos — sei porque elas me são enviadas, não? Uma boa síntese poderia ser esta: escrevo sobre muitos assuntos e me atrevo a dar opinião sobre qualquer coisa, não me atendo, como a grande maioria, a uma área — política, economia, artes & espetáculos, comportamento… Pois é. Vão ter de me fumar — ooopsss! De me engolir!

Falo sobre muita coisa porque, na verdade, falo de uma coisa só: LÓGICA!!!

No dia 12 de fevereiro deste ano, escrevi um artigo chamado Uma droga de debate, onde se lia o que segue. Vejam. Retomo depois:
Suponho que, se legalizadas as drogas, continuarão proibidas outras modalidades de crime: assaltos, roubo de carros, pedofilia, tráfico de órgãos, de armas… Qual é a fantasia dos não-proibicionistas? Garotinhos dos morros, ao cair da tarde, andariam pelas praias da Zona Sul do Rio vendendo suas trouxinhas aos bacanas que aplaudem o ocaso… Não será assim. Os que estão envolvidos com o narcotráfico não costumam ter qualquer amor especial pela droga ou vinculação moral com ela. Estão nessa porque ela é proibida. Quando não for mais, mudarão de ramo e vão atuar, como direi?, em outras proibições. Sei: é difícil para certa mentalidade considerar que o crime é, sim, uma escolha, uma opção.

Voltei
Estava chamando a atenção para um fato óbvio, que já abordei outras vezes: o problema da segurança pública no Brasil decorre do misto de ineficiência e impunidade. ISSO QUER DIZER QUE, SE AS DROGAS FOSSEM REALMENTE DESCRIMINADAS, TODAS ELAS, E A ATIVIDADE DEIXASSE DE SER RENTÁVEL, OS CRIMINOSOS MIGRARIAM PARA OUTROS CRIMES, ENTENDERAM? A suposição de que, sem droga para vender, os traficantes-chefes ou mesmo vapores do tráfico se tornariam operários ou, sei lá, especialistas em oboé é uma estupidez. Reportagem da Folha deste domingo dá mostras disso. Leiam isto:

As facções do tráfico nas favelas do Rio perderam nos últimos anos parte da clientela de classe média, e seus lucros dependem cada vez mais das próprias comunidades, o que provoca maior disputa por territórios entre elas.
Há dois sinais disso, segundo especialistas ouvidos pela Folha. O primeiro é a entrada do crack na cidade -a droga, consumida pelos mais pobres, era inexistente no Rio há cinco anos. O segundo é a exploração pelos traficantes, via taxação ou “concessão”, de serviços como transporte alternativo (vans), distribuição de botijões de gás e mototáxi
(íntegra aqui).

Sei que alguns tentarão não entender o que está escrito. Então reitero. Como parte da clientela da classe média se foi, a bandidagem não se dedicou à mecânica de automóveis, ao origami ou ao crochê. Nada disso! Simplesmente escolheu outros crimes. Se a política de segurança pública do Brasil continuar a mesma; se os bandidos continuarem fora da cadeia; se o crime continuar a compensar, a mão-de-obra do tráfico, queridinhos, vai deixar de assombrar só os morros e vai descer para assombrar o asfalto, como acontece esporadicamente, diga-se.

É por isso que a tese de que a legalização das drogas diminuiria a violência ou é conversa de quem não pensou direito a respeito do assunto e se nega a abraçar a lógica como conselheira ou é papo de, sei lá como chamá-los, “drogófilos”. ATENÇÃO: NÃO É A DROGA QUE FAZ  O CRIMINOSO. O criminoso escolhe afrontar a lei: a droga é uma das opções que ele tem; é a mais freqüente, atraente e arrasadora porque mais lucrativa.

Assim, atenção para o devastador realismo do que segue: com uma polícia corrupta; com um governo federal incapaz de combater o tráfico de armas; sem celas disponíveis para prender todos os que deveriam estar presos; sem uma política federal de segurança pública; se tudo continuar, em suma, como está, a ilegalidade das drogas não deixa de ser um fator de segurança para uma parte da sociedade ao menos. A razão é simples: se o bandido continua solto e não pode ganhar dinheiro vendendo maconha ou cocaína, ele vai meter um trabuco na sua cara para lhe tomar o carro, a carteira, o relógio, o tênis… À legalização das drogas corresponderia o aumento brutal de todos os outros crimes.

Isso é lógica, meus caros. Já era em fevereiro, agora confirmada pelos fatos. E os fatos, acreditem, andam sempre no trilho lógico. Se  e quando parecer que não,  só estamos diante de um erro de avaliação. Os fatos, por mais detestáveis, por mais estúpidos, por mais assustadores, são sempre fatos.

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