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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Quem trata um sapo como ser humano acabará tratando o ser humano como um sapo. Já aconteceu! E houve aplausos!

Ai, ai… Lembram-se aquela exposição de corpos humanos, oriunda da China (claro!), que correu o mundo? Pois é… Conheço duas pessoas que acharam aquilo um horror. Eu e Hugo Chávez — que péssima companhia, né? Pois é. O fato de uma pessoa que eu eventualmente deteste pensar o que penso sobre uma coisa ou outra […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 31 jul 2020, 05h08 - Publicado em 23 out 2013, 06h35

Ai, ai…

Lembram-se aquela exposição de corpos humanos, oriunda da China (claro!), que correu o mundo? Pois é… Conheço duas pessoas que acharam aquilo um horror. Eu e Hugo Chávez — que péssima companhia, né? Pois é. O fato de uma pessoa que eu eventualmente deteste pensar o que penso sobre uma coisa ou outra não me faz mudar de ideia. Como ele era um tiranete ridículo, não se limitou a criticar a exposição. Ele se encarregou de proibi-la. Vejam o que escrevi a respeito. Volto depois.
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Vocês se lembram de uma exposição que exibia, digamos assim, aquilo que nos habita debaixo da pele? Andou circulando por aqui em 2011 e 2012, acho. A origem do material é chinesa. Corpos e órgãos humanos eram exibidos em todas as suas minúcias de músculos, ossos, veias etc. Na imprensa nativa, só encantamento. Chamou-se aquele voyeurismo necrófilo de “encontro entre a ciência e a arte”. Pura bobagem. Agora atenção para o que segue.

A exposição chegou à Venezuela em março de 2009. E foi proibida por Hugo Chávez. Por quê? Porque, disse ele, a exibição de um corpo humano insepulto, daquele modo, é um ato de degradação moral.

É evidente que proibir a exposição é coisa de tiranete de província, uma estupidez mesmo! Mas como vou negar que até Chávez, como um calendário que não se movesse, podia estar certo ao menos uma vez ao ano? Não tinha de proibir coisa nenhuma, mas é claro que concordo com suas ponderações morais a respeito. Quando se banaliza o humano como se fosse um sapo, corre-se o risco de tomar o humano por um sapo e um sapo por um humano, mais ou menos como fazem alguns ecologistas hoje em dia, que não hesitariam em deixar o país sem hidrelétricas se for para proteger alguns batráquios.

Chávez acertou até ao fazer a devida distinção entre um corpo entregue à investigação científica e outro que só serve para darmos uma espiadinha… Lamento! Nem arte nem ciência. Não era arte porque esta recria a natureza, em vez de expor vísceras. Não é ciência porque os que assistem àquela coisa miserável nada têm a fazer com o que experimentam. Absolutamente nada!

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Confesso que aquilo provocou meu asco moral. De resto, ninguém sabia a origem daqueles corpos, que viajavam mundo afora. Assim, reitero, proibir é uma tolice; expor os corpos, uma imoralidade.

Retomo
Pois é, meus caros… Eu sou mesmo um reacionário à moda antiga. Eu ainda considero o ser humano uma espécie superior a todas as outras. Se eu fosse apenas um humanista, e acho que sou também, pensaria assim. Como me considero humanista e cristão, ainda acredito que somos também a morada do espírito de Deus. “Que nojo, Reinaldo! Eu prefiro os beagles.” Tudo bem.

Sou, assim, esse lixo que não aceita a pena de morte, mas também não aceita o aborto. Sou, assim, esse lixo que recusa que embriões humanos sejam tratados como coisa — porque se abre a vereda para a coisificação do próprio homem. Repudio de maneira absoluta certa estupidez que anda por aí, segundo a qual uma hierarquia entre espécies seria mera questão de valor. No fim das contas, dizem, somos todos formados de aglomerados muito semelhantes. Teses assim ecoam os piores totalitarismos.

Recebi uma quantidade chocante de absurdos. Uma louca — vários loucos enveredaram por aí, mas essa foi mais explícita, e poupa-a de si mesma não divulgando o nome — afirmou com todas as letras que “não há diferença entre um matadouro e um campo de concentração nazista”. Outro escreveu que um dia ainda “vamos nos envergonhar de comer carne como nos envergonhamos da escravidão”.

Vou confessar um segredinho aqui porque há contemporâneos que sabem disso: quando eu era militante trostskista, eu me irritava mais com certas, como posso chamar?, mentalidades delirante-alternativas do que com os stalinistas. Ainda que considerasse que estes estavam essencialmente errados e defendessem ideias criminosas (sim, as de Trotsky também eram…), ainda eram, vá lá, era o que eu chamava de “coisas deste mundo”.

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Francamente, eu não tenho o que fazer nem tenho muito a dizer a quem não distingue gente de bicho, campo de concentração de matadouro, comer carne de escravidão. Não é o excesso de bondade que produz isso, mas a ignorância. A luta de libertação dos oprimidos, na sua face virtuosa, consiste justamente no esforço de deixar de ser “coisa”. É claro que sou contra os maus-tratos aos animais. Na minha casa, como em todas as casas em que há cachorros, a gente conversa com eles. Bato um papo até com a tartaruga, um animal de sangue frio… Os pecilotermos costumam ser refratários a aproximações mais fraternas…

Respeito opiniões diversas, respeito diferenças. Compreendo que haja pessoas que se recusem a comer carne (não entendo por que, na maioria dos casos, o peixe é tratado como se vegetal fosse, mas vá lá…). É uma escolha individual que, qualquer estudioso dirá, afronta alguns saltos civilizatórios. Cada um na sua. O que é inaceitável, no entanto, é que se imponham convicções à sociedade como um todo na base do berro, da violência e do crime. Os anos de pesquisa que se perderam no Instituto Royal não pertencem àquelas pessoas boas que foram lá vandalizar o prédio. Eram uma conquista de todos nós. Quem entrou lá, sequestrou os cachorros e destruiu amostras fez uma hierarquia: primeiro os bichos, depois o homem.

Não é o meu mundo. Nunca será. 

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