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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Por que eu sumi. Ou “A democracia deles”

Pois é. Estive ontem com Paulo Henrique Amorim. Para explicar a circunstância, e preciso recuperar uma coluna de Diogo Mainardi, publicada no dia 6 de setembro do ano passado. É a que segue em azul. Volto depois: José Dirceu tem um blog. Quer saber quanto o iG gasta com ele? Eu também quero. Quer saber […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 20h03 - Publicado em 18 dez 2007, 06h40
Pois é. Estive ontem com Paulo Henrique Amorim. Para explicar a circunstância, e preciso recuperar uma coluna de Diogo Mainardi, publicada no dia 6 de setembro do ano passado. É a que segue em azul. Volto depois:

José Dirceu tem um blog. Quer saber quanto o iG gasta com ele? Eu também quero. Quer saber de quem é o dinheiro do iG? É seu, tonto! De quem mais poderia ser?

O iG pertence à Brasil Telecom. E a Brasil Telecom está na esfera dos fundos de pensão estatais. Eu já contei aqui na coluna como o lulismo tomou a Brasil Telecom de Daniel Dantas. Houve de tudo: financiamento ilegal de campanha, espionagem, chantagem, achaque e propina. Eu já contei também qual foi o papel de Lula na trama. Chega de me repetir. Quem quiser saber mais sobre o assunto, consulte o arquivo de VEJA. O que importa agora é como o iG está gastando seu dinheiro. E para onde ele está indo.

Luiz Gushiken é o ideólogo da propaganda lulista. Quando os fundos de pensão passaram a influir no iG, o portal se transformou na voz do PT. Caio Túlio Costa, aquele que Paulo Francis apelidou de “lagartixa pré-histórica”, foi nomeado presidente do grupo em maio deste ano. De lá para cá, além de José Dirceu, foram contratados como comentaristas Franklin Martins, Paulo Henrique Amorim e Mino Carta. Todos eles na fase descendente de suas carreiras. Todos eles afinados com o DIP de Luiz Gushiken. Mais do que isso: Paulo Henrique Amorim e Mino Carta se engajaram pessoalmente na batalha comercial do lulismo contra Daniel Dantas. Quer saber quanto o iG paga a Franklin Martins? Entre 40 000 e 60.000 reais. Quer saber quanto ele paga pelo programa de Paulo Henrique Amorim? 80.000 reais.

O iG pode parecer pouca coisa. Mas é o terceiro maior portal do Brasil. Agora está pronto para difundir a propaganda do governo. O PT acaba de elaborar um documento em que pede uma “mudança nas leis para assegurar mais equilíbrio na cobertura da mídia eletrônica”. Muita gente está alarmada com o documento. O temor é que, num segundo mandato, os lulistas atropelem as leis para tentar aumentar seu controle sobre a imprensa. O fato é que isso já aconteceu pelo menos uma vez neste mandato, quando a turma de Luiz Gushiken tomou de assalto o iG. O documento do PT fala em oferecer “incentivos econômicos para jornais e revistas independentes”. Independente, para o PT, é José Dirceu. É Franklin Martins. É Paulo Henrique Amorim. É Mino Carta. É o assessor de imprensa de Delcídio Amaral, que tem um blog político no iG. Só falta o Luis Nassif. Essa é a turma que, segundo o PT, precisa de incentivos econômicos do Estado. Carta Capital sempre atacou Daniel Dantas. Acaba de ser recompensada por um acordo com o iG. De quanto? Eu quero saber.

Lula cantarolou a seguinte marchinha, como relatam os repórteres Eduardo Scolese e Leonencio Nossa no livro Viagens com o Presidente:

“Ei, José Dirceu,
devolve o dinheiro aí,
o dinheiro não é seu”

Lula conhece muito bem José Dirceu. Se diz que o dinheiro não é dele, é porque não é mesmo. Devolve o dinheiro aí, José Dirceu.

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Voltei
Amorim não gostou. Processou Diogo. Duas vezes, civil e criminalmente. Já perdeu o primeiro processo em primeira instância. Fui depor ontem como testemunha de defesa de Diogo no segundo. Sou um tanto desligado dessas coisas. Tenho muito o que fazer para ficar me ocupando de debater jornalismo em tribunal. Jurava que era nesta terça.

Limitei-me a responder o que me perguntaram a juíza e os advogados das duas partes. Conto aqui alguns detalhes porque o processo é público, não corre em segredo de justiça. Segundo entendi, a partir das perguntas que me fizeram, Paulo Henrique não contesta o salário informado por Diogo. Também não pode contestar que o iG pertença a Brasil Telecom. E parece fato igualmente incontestável que os jornalistas identificados com o PT e com Lula têm especial apreço pelo iG — ou o contrário; ou, ainda, as duas coisas. Também não dá para negar que o governo se esforçou para tirar Daniel Dantas do comando da Brasil Telecom — como se lê no texto acima, trata-se de uma relação, digamos, explosiva.

Paulo Henrique só pode ter-se sentido agravado, acho eu, com a afirmação de que ele está no grupo das pessoas que vivem “a fase descendente” de suas respectivas carreiras. Não se trata, quero crer, de um juízo moral, mas de fato. Ainda que ele próprio considere ascensão profissional ser uma estrela da emissora do bispo, o fato é que já foi uma estrela do jornalismo da Globo. Hoje em dia, o ex-diretor da sucursal de Nova York da maior emissora do país pode servir de escada para os humoristas de um quadro chamado “Bofe de Elite”, em companhia de Tiririca e Alexandre Frota.

Não pretendo aqui contar detalhes do diálogo ocorrido na sala da juíza. O que me espantou, confesso, foi outra coisa. Ao encerrar a sua intervenção, bastante exaltado — podia-se ouvi-lo de fora —, Paulo Henrique comentou: “Acho que perdi. Não vou conseguir metê-lo [Diogo] na cadeia”. E contou ter sido repreendido por sua própria advogada em razão de seu comportamento inconveniente durante a sessão. Cadeia? Por causa do texto acima? É esta a tolerância dos que acusam a intolerância alheia? Talvez vocês não queiram perder o seu tempo pesquisando os adjetivos com os quais o próprio Paulo Henrique já brindou Diogo Mainardi. Também já pôs no ar uma longa entrevista com um senhor que me processa, dando-lhe amplo “direito de ataque”, sem nem se ocupar em saber se eu teria algo a dizer. É o seu modo de fazer as coisas. Mas cadeia? Já imaginaram? Na República de Amorim, o primeiro preso seria Diogo Mainardi.

Na ante-sala da juíza, em tom amistoso, admito, afirmou que o chamei de “pederasta” e que não pensava em me processar. Ainda bem pra ele. Iria perder.
— Eu? Eu não chamei, não.
— Chamou, sim. Disse que eu era “catita”.

Se vocês entrarem no dicionário, “catita” quer dizer “que ou quem se veste bem e/ou tem elegância”. Nem é o que eu penso de Paulo Henrique. No quadro Bofe de Elite, de fato, ele era o único em trajes aceitáveis diante de um monte de supostos soldados, vestidos de preto e com botas cor-de-rosa. Só me restou lembrar-lhe que “catita” não é sinônimo de “pederasta”. E que ele poderia ser catita e heterossexual ao mesmo tempo… E ainda que não fosse possível, noto agora: não tenho nada com isso.

De fato, como vêem, há um quê de ridículo nessa judicialização do debate político e jornalístico. Ainda bem que essa gente não vai conseguir fazer o Brasil com o qual tanto sonha, não é? Vocês já viram os primeiros que gostariam de ver em cana. Vocês já sabem quem eles consideram ser o mal do Brasil…

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