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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Orlando: hoje pior do que ontem e melhor do que amanha. Ou: Fala de ministro na Câmara soa como chantagem à presidente. Será?

A situação do ministro Orlando Silva, do Esporte, entrou naquela dinâmica em que o hoje é sempre pior do que o ontem e melhor do que o amanhã. Quanto mais se entra na economia interna do Ministério do Esporte, mais o circo de horrores vai se expondo. Há coisa de todo tipo: falcatruas grandes, médias […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 10h22 - Publicado em 26 out 2011, 05h47

A situação do ministro Orlando Silva, do Esporte, entrou naquela dinâmica em que o hoje é sempre pior do que o ontem e melhor do que o amanhã. Quanto mais se entra na economia interna do Ministério do Esporte, mais o circo de horrores vai se expondo. Há coisa de todo tipo: falcatruas grandes, médias e pequenas; benefícios a “camaradas” e a familiares; incúria pura e simples… É impressionante! VEJA já denunciava a lambança em 2008. O governo do Apedeuta não fez nada à época — e como se sabe, ele estimulou, agora, Silva a resistir à pressão. E o fez pouco antes de o ministro ser chamado para conversar com a presidente Dilma Rousseff, tão logo ela voltou da Europa. Sentindo-se fortalecido, o comunista do Brasil não entregou o cargo; intimidada, Dilma não pediu. Os dois perderam um bom momento. E há, é inequívoco, indícios de que a Soberana está sendo vítima de uma espécie de chantagem do comando do PCdoB. Já volto aqui. Antes, algumas considerações necessárias.

Na sua insana batalha para preservar o cargo, Silva está deixando de lado também qualquer sentido de prudência. A decisão de ir à Câmara falar sobre a Lei Geral da Copa — como se nada estivesse acontecendo, como se ele fosse mesmo indestrutível (para lembrar o Pablo Neruda daquela carta cafona), como se estivesse no comando dos fatos — foi mais do que imprudente: foi estúpida. Enquanto ele engrolava seu discurso, deputados e deputadas, inclusive os do PCdoB, faziam outra coisa: batiam papo, liam jornal, consultavam e-mails ao celular, navegavam no iPad, olhavam para o teto… O clima esquentou quando o deputado ACM Neto (DEM-BA) pôs o dedo na ferida: “A presença de Vossa Excelência aqui é uma afronta ao povo brasileiro. O Brasil não quer Vossa Excelência cuidando da Lei Geral da Copa, e sim o quer distante do Ministério dos Esportes”. Como negar?

Ali estava um ministro agora oficialmente investigado. Já não se tem dúvida de que a pasta que ele comanda é fonte de corrupção, de desmandos, de malversação de dinheiro público. Isso está comprovado pelo próprio governo. A Controladoria Geral da União aponta desvios de R$ 40 milhões — e isso porque se avaliou apenas uma parte pequena dos contratos. O que se vai apurar agora é a responsabilidade do ministro. É pouco provável que tenha deixado ato de ofício, embora já se saiba que meteu a sua assinatura numa facilidade criada justamente para uma das ONGs de João Dias, o policial que o acusa — e isso depois de as entidades do agora denunciante já estarem sob suspeita.

O Planalto sabe que o ministro chegou ao fim da linha e, noticia-se nesta quarta, quer que o próprio PCdoB decida o seu destino. Por que não a presidente? Eis o busílis — e retomo o fio que deixei lá no primeiro parágrafo. Ao se defender pela enésima vez das acusações com o famoso “não há provas contra mim” — como se seu ministério fosse comandado por algum ET —,  Silva disse uma frase que a este escriba soou como chantagem. Explicou por que fica no ministério:
“Quem nomeia e exonera ministros é a Presidência da República. A função de ministro é uma função de confiança”.

Nesse particular, ele tem razão. Ao fazer tal afirmação, estava dizendo que segue no posto porque tem a “confiança” da presidente. Também estava afirmando que não iria se demitir. Ela que o demita se quiser e… se puder! Os indícios de chantagem estão muito claros. Nos bastidores, defensores do partido falam para quem quiser ouvir que o PCdoB age como todos os outros partidos, em especial o PT. E chegam a acusar o Ministério da Saúde como a pasta-mãe do onguismo partidário. Em último caso, estão perguntando: “Por que só com a gente?” Mais: o caminho que conduz à degola de Silva pode custar a cabeça de Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal, ex-PCdoB, hoje no PT. Convenham: basta seus antigos “camaradas” botarem a boca do trombone.

Na sua ativa insanidade, os comunistas do Brasil — e Silva em particular — exigem que Dilma sustente o insustentável. Ela piscou, e eles acharam que podem determinar o ritmo dos acontecimentos. Não podem. Neste momento, o Planalto tenta convencer o partido a aceitar, sem retaliações posteriores, a demissão do ministro. Lula, que, com a sua costumeira empáfia e disposição para confrontar o óbvio, estimulou Silva a ficar talvez tenha de ser chamado para conversar com os camaradas e bater o martelo: não dá mais!

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