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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Haddad, com 47% de reprovação, tornou-se uma caricatura de prefeito

Pois é, pois é… Que coisa, hein, Fernando Haddad? O negócio tá feio. Vejam bem: há dois dias, Lula afirmou que ele deveria entrar de cabeça na campanha do petista Alexandre Padilha ao governo de São Paulo. Padilha já está com 4% dos votos… Atendendo sei lá a que chamado da (i)lógica, o partido teria […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 03h27 - Publicado em 18 jul 2014, 23h32
Haddad, uma caricatura de prefeito, no traço de Boopo, leitor deste blog

Haddad, uma caricatura de prefeito, no traço de Boopo, leitor deste blog

Pois é, pois é… Que coisa, hein, Fernando Haddad? O negócio tá feio. Vejam bem: há dois dias, Lula afirmou que ele deveria entrar de cabeça na campanha do petista Alexandre Padilha ao governo de São Paulo. Padilha já está com 4% dos votos… Atendendo sei lá a que chamado da (i)lógica, o partido teria decidido que a campanha na TV vai tentar recuperar a imagem do prefeito para, então, o prefeito alavancar o candidato. Então tá. Acho que não funciona, mas dou o maior apoio, se é que me entendem.

Está no ar, saibam os leitores que não são da capital paulista, uma campanha publicitária exaltando a suposta competência da Prefeitura na gestão da cidade durante a Copa. Sabem como é: todos eles tentaram pegar uma carona no evento. Leiam o noticiário sobre a Vila Madalena. Cada morador de São Paulo certamente temeu uma Sodoma e Gomorra na porta de sua casa… A propaganda pode muito, sim. Quando, no entanto, ela afronta a realidade de maneira tão cabal, aí pode ser contraproducente.

O Datafolha foi a campo para saber o que a população da cidade acha da administração Haddad. O resultado é devastador pra ele: a rejeição à sua administração subiu de 36% para 47% em três semanas. No mesmo período, o índice de ótimo e bom oscilou para baixo: de 17% para 15%. Caiu até os que consideram a sua gestão regular: de 44% para 37%. Vejam quadros publicados pela Folha Online.

Datafolha Haddad julhoDatafolha Haddad 2 julho

Só Jânio Quadros e Celso Pitta, com um ano e meio de gestão, tinham rejeição maior: 66% e 54%, respectivamente. O tucano José Serra, derrotado por Haddad, nesse mesmo período, tinha a reprovação mais baixa desde a gestão Jânio: só 8%. À diferença de Haddad, e como!, era aprovado por 56%.

É uma avaliação justa?
Justíssima! Haddad não governa a cidade para o conjunto da população. Sua administração é um mero balcão de demandas de supostos “movimentos sociais” e de grupos organizados que gritam mais — inclusive aquela “subintelectuália” de esquerda que o leva a adotar medidas destrambelhadas, que prejudicam a vida também dos mais pobres. Desde quando, no entanto, esses esquerdistas de universidade & boteco sabem o que quer o povo? Como diria Monteiro Lobato, da pobreza, não conhecem nem o trinco da porta.

Vamos lá. A Prefeitura de São Paulo tem hoje um troço chamado “Braços Abertos”, um programa que, sob o pretexto de reduzir os danos decorrentes do consumo de crack, na prática, o financia. Um secretário do prefeito admitiu que, na Cracolândia, a droga está legalizada. Vários países do mundo têm programas de assistência a dependentes. Só no Brasil existe algo como esse “Braços Abertos”, que financia o consumo. E tentem me provar que não é assim. É a realidade dos fatos. Diante das críticas, Haddad fez o quê? Está criando mais um núcleo na cidade para abrigar os drogados em hotéis. Vai dobrar a dose do remédio ruim.

O prefeito também decidiu espalhar faixas de ônibus, já escrevi aqui, onde elas são e onde não são necessárias. Sim, quando o ônibus transita com mais velocidade nesses lugares, o usuário aprova. Quando, no entanto, fica mais tempo à espera do ônibus — e fica! — reprova. Ao esmagar os carros particulares — em que pobres também circulam — e criar dificuldades homéricas em certas áreas da cidade, aumenta o caos urbano em vez de resolvê-lo. Basta analisar os dados sobre congestionamentos. Não estão contentes nem os usuários de ônibus nem os de carros particulares. A “má boa consciência”, no entanto, pode trair o administrador. As pessoas, em sua maioria, se dizem favoráveis às faixas com receio de serem acusadas de defensoras dos ricos…

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Haddad passou a flertar abertamente com os movimentos do sem-isso e sem-aquilo, que ajudaram a elegê-lo, sim. Sobretudo, foram muito úteis na demonização de seus então adversários: Celso Russomanno e José Serra. O prefeito subiu no palanque do MTST, que hoje manda na distribuição de casas de São Paulo e para a cidade quando lhe dá na telha. Não adianta: isso vai parar na conta do prefeito. E com razão. Ou não foi a sua turma que, na prática, convidou Guilherme Boulos e seus sequazes a cercar a Câmara dos Vereadores. Os que já têm casa, na média, não devem gostar disso. Mas será que os que não têm gostam? Para quem governa Haddad? Para os “mobilizados”?

Ele se tornou uma agência de despachos de micromovimentos. Outra grande ideia será acabar com estacionamentos para aumentar as ciclovias. Por quê? Ora, porque algum subintelectual soprou aos ouvidos do companheiro que esse negócio de carro é um atraso, entendem? Assim, Dilma prorroga isenção de impostos para aumentar a venda de carros — comprados majoritariamente por São Paulo —, e Haddad transforma a vida dos motoristas num inferno.

Vamos mais longe. A Prefeitura, hoje, em vez de coibir os “batidões de periferia”, que destroem a tranquilidade de milhares de moradores pobres, decidiu regulamentá-los, porque, afinal, seus interlocutores são os promotores desses eventos, supostos representantes da “cultura da periferia” — coisa dos coxinhas vermelhos de classe média do complexo Pucusp.

Eis aí o homem que nos prometia o Arco do Futuro.

Supercoxinha
Nunca vi um prefeito eleito e em começo de mandato tão incensado pela imprensa paulistana como Haddad. De certo modo, ele era a cara e a expressão da esmagadora maioria dos jornalistas: esquerdista; oriundo da classe média alta; absolutamente ignorante sobre o que é a pobreza, vendo a periferia como um lugar de experimentações antropológicas. A gente lia as reportagens, e lá estava o homem prometendo que resolveria isso e aquilo…

Por isso eu o apelidei de “Supercoxinha”. Leitores chegaram a fazer charges, a meu convite, retratando a personagem. Numa entrevista concedida em abril do ano passado à jornalista Joyce Pascowitch, da revista “Poder”, ainda superpoderoso, travou-se o seguinte diálogo:

Joyce – Notório por suas críticas ao PT, o colunista da Veja, Reinaldo Azevedo, tem chamado você de Supercoxinha, como um sujeito bom moço que quer ser super-herói. Que acha disso?
Haddad – Ah, você não vai me perguntar dele, vai? [Irritado.] Não frequento o ambiente virtual dele. Ele é uma caricatura de jornalista, né? Mas acho que para a esquerda é funcional a existência dessa figura. Faz muito bem pro nosso projeto! As pessoas veem o quão patética é a alternativa nesse momento. É como o pastor Silas Malafaia. Os ataques dele à minha campanha foram tão ridículos que acabaram me ajudando.

Retomo
Em relação a mim, Haddad deveria ter feito como Santo Agostinho, preferindo a crítica que o corrige ao elogio que o corrompe (no sentido agostiniano, que não é corriqueiro na política). Mas ele fez o contrário.

Haddad, um ano e três meses depois dessa entrevista, é uma caricatura de prefeito.

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