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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A pesquisa Datafolha em SP, os eufóricos e os fatos

O mundo petista está em festa, e o petralha, então, nem se fala por causa da pesquisa Datafolha para a Prefeitura de São Paulo. Dados os números — e dadas, sobretudo, algumas leituras que se fizeram sobre eles —, o não-petismo está liquidado, e basta Fernando Haddad esperar para correr para o abraço. Não adianta! […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 09h56 - Publicado em 11 dez 2011, 07h01

O mundo petista está em festa, e o petralha, então, nem se fala por causa da pesquisa Datafolha para a Prefeitura de São Paulo. Dados os números — e dadas, sobretudo, algumas leituras que se fizeram sobre eles —, o não-petismo está liquidado, e basta Fernando Haddad esperar para correr para o abraço. Não adianta! O tempo passa, o tempo voa, e a experiência parece não ensinar nada a muita gente. Tenho uma relação de absoluta transparência com os leitores. Sempre digo o que estou pensando e também o que me agrada e o que não me agrada. Os números me agradam? Não! Mas há motivos para supor que o jogo está jogado? Também não! Existe a história.

Segundo dados que vejo no texto que está na edição eletrônica da Folha, 48% dizem que podem votar em alguém apoiado por Lula, e a rejeição à candidatura de Serra chega a 38%. A esgotosfera delira, baba de satisfação. Quando bandido fica feliz, coisa boa não é. Sigamos. A chamada da Folha é esta: “Serra tem maior rejeição, e Lula, maior influência”. Na página interna, “Lula aumenta força em SP, e Serra tem maior rejeição”. Não há juízo capaz de justificar essa abordagem nem do ponto de vista técnico nem do ponto de vista jornalístico. Trata-se de uma forçada de mão editorial.

Em primeiro lugar, Serra não é um dos pré-candidatos; nem deveria estar na pesquisa. Se está, é um absurdo sintetizar as coisas desse modo, sugerindo a suposta trajetória ascendente de um e a descendente do outro, quando, como se sabe, num caso, afere-se apenas a influência e, no outro, potencial de rejeição e voto. De todos os candidatos postos da lista, o tucano é o mais conhecido — e é razoável que seja o mais rejeitado; aliás, com absoluta certeza, é rejeitado por pelo menos um terço do eleitorado que vota no PT. Marta, quando candidata, disputava o topo da rejeição — no seu caso, havia o eleitorado que nunca vota no PT; todos sabiam que ela era petista. Haddad, por exemplo, para ser rejeitado, precisa, primeiro, ser conhecido.

Com base em dados da pesquisa, é evidente que se fez uma leitura editorializada e favorável ao PT. Se é assim, o texto prenuncia, sem que o diga, a vitória de Fernando Haddad, embora se informe que a maioria ainda demonstra pouco interesse na eleição, com o número de indecisos chegando a 29%. “A grande maioria ainda não se deu conta da eleição. O cenário está completamente aberto”, resume Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Uma das razões da rejeição a Serra (além do terço petista que hostiliza tucanos…), todos sabem, é a história de que poderia, se eleito, deixar a Prefeitura para se candidatar a outro cargo. Certa corrente bucéfala do jornalismo paulistano conseguiu transformar isso num crime. Trata-se apenas de uma besteira. Mas vamos aos números que estão na edição eletrônica. Volto depois.
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O Datafolha projetou cinco cenários. Em quatro, o ex-deputado Celso Russomanno (PRB) lidera com 20%, em empate técnico com o vereador Netinho de Paula (PC do B), que varia de 14% a 15%. Quando Serra é testado, ele aparece na ponta com 18%, empatado com Russomanno (16%) e Netinho (13%). Os dois últimos ainda terão que vencer a pressão de Lula, que tenta convencer seus partidos a retirá-los da disputa para entrar na chapa de Haddad. Entre os outros pré-candidatos do PSDB a prefeito, o mais bem posicionado é o secretário estadual de Meio Ambiente, Bruno Covas, com 6%. O secretário de Energia, José Aníbal, tem 3%. O deputado Ricardo Tripoli e o secretário de Cultura, Andrea Matarazzo, têm 2% cada um. O vice-governador Guilherme Afif Domingos (PSD), do partido de Kassab, aparece com 3% nos cinco cenários. Em reuniões com aliados, Serra defendia que o PSDB abrisse mão de lançar candidato próprio para apoiá-lo.

Voltei
Vou ver depois no jornal o que aconteceu com Gabriel Chalita. Por que não está aí? O sussurrante pré-candidato do PMDB, que aparece na televisão fazendo caras e bocas de moço bonzinho, não pontuou ou não foi incluído na lista? Sigamos.

Não! Eu não gosto nada desses números, mas não estou aqui a sustentar que essa pesquisa beira a irrelevância por causa do meu gosto. O que me leva a essa conclusão é a história. Gilberto Kassab teve, em 2008, 33,61% dos votos no primeiro turno e se elegeu, no segundo, com 60,72%. Cumpre lembrar alguns números do próprio Datafolha.

Pesquisa realizada pelo instituto entre os dias 26 e 29 de novembro de 2007 — quase correspondente a esta de agora, quatro anos depois — apontava Kassab (DEM) com 12% das intenções de voto; Geraldo Alckimin (PSDB), com 26%, e Marta (PT), com 24%. Muito bem. Vou citar uma pesquisa mais próxima da eleição, prestem atenção: no dia 24 de agosto, faltando meros 41 dias para a disputa (5 de outubro), Kassab — aquele que venceu no segundo turno com mais de 60% — tinha ridículos 14%; Marta estava lá em cima, com 41%, e Ackmin tinha 24%. Na simulação de segundo turno, Marta vencia tanto Alckmin (49% a 44%) como Kassab: 55% a 35%: VINTE PONTOS DE VANTAGEM. Faltavam, reitero, 41 dias. Em nova pesquisa a 23 dias depois,  12 de setembro, o agora prefeito tinha ido a 21% (Marta, 37%), mas já empatava tecnicamente com a petista no segundo turno, ela na frente: 48% a 44%. Pois é: no dia 4, véspera do pleito, o Datafolha via Kassab com 30% dos votos válidos (ele teve 33,61%), e Marta, com 36% (ela teve 32,79%). A diferença de seis pontos pra ela se mostrou, na verdade, de quase um ponto pra ele.

Poliana?
Estou dando uma de Poliana bêbada, tentando resistir à realidade? De maneira nenhuma! A situação é bastante difícil, sim! Dificílima! Lula e Dilma virão com tudo no apoio a Haddad. O objetivo é tomar São Paulo, não só a Prefeitura.  Se PSDB e PSD não estiverem no mesmo palanque, a situação pode ficar muito complicada.

Quando o resultado de uma pesquisa é bom, o político sempre se anima. Quando é ruim, se a precipitação toma o lugar da serenidade, a vaca vai pra o brejo. Que tucanos e pessedistas reflitam sobre os números e a dinâmica da eleição passada. Maximizar a importância do levantamento de agora só ajuda quem se saiu bem no… levantamento de agora: o PT! Não por causa do candidato, desconhecido pela maioria,  e sim do eventual peso de Lula. O mesmo Lula que, estando na Presidência em 2008 e já com a popularidade nos cornos da lua, não elegeu Marta.

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