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Radar Por Robson Bonin Notas exclusivas sobre política, negócios e entretenimento. Com Evandro Éboli, Mariana Muniz e Manoel Schlindwein. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Aos 76, Leci Brandão lamenta ‘samba sem povo das lives’

“Sofro muito, porque gosto do público perto de mim. É um terror', diz a sambista

Por Manoel Schlindwein Atualizado em 21 jan 2021, 13h48 - Publicado em 21 jan 2021, 12h32

A maneira como o governo brasileiro tem conduzido a pandemia de coronavírus leva a cantora e deputada estadual Leci Brandão à perplexidade. “A falta de vergonha desse povo que tá mandando aqui é uma coisa absurda”, dispara aquela que é a segunda mulher negra a ocupar um assento na assembleia legislativa paulista. “Eles estão fazendo coisas irresponsáveis demais”, completa, em referência ao episódio da véspera de seu show na ViradaSP Online, quando pacientes dos hospitais de Manaus ficaram sem oxigênio.

A live de Leci Brandão foi transmitida no último sábado a partir do palco do teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. “Sofro muito, porque gosto do público perto de mim. É um terror”, desabafa a cantora sobre a ausência de plateia, uma rotina imposta pelas regras de isolamento social. “Em teatro assim, fica todo mundo em pé, porque o samba come e vira uma grande festa”.

Palavra de quem foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Mangueira, em 1972. Suas lembranças vão até aquele almoço servido por uma amiga de sua madrinha, a mãe de Cartola. “Teve um dia que fui à uma feijoada na casa do Cartola preparado pela Dona Zica, e lá estava o Candeia, o Ary do Cavaco, o Sérgio Cabral pai, muita gente, e eles fizeram um partido-alto e chamaram meu nome. Fiz um verso ali na hora”. Quem também estava para testemunhar o início da carreira que percorre várias décadas era o crítico musical José Ramos Tinhorão, do Jornal do Brasil. “Aquilo chamou muito a atenção deles, foi meu batismo”.

De lá para cá, sucessos marcantes, pontuados por críticas sociais, como é o caso dos clássicos Zé do Caroço, sobre um personagem real do morro do Pau da Bandeira, em Vila Isabel, e Anjos da Guarda, um tributo aos professores. “Fiquei extremamente emocionada com a homenagem que fizeram”, conta sobre o recente documentário “Emicida: AmarElo – É tudo para ontem”, de resgate da cultura negra brasileira e que a cita como uma referência.

A partir de seu gabinete, batizado de “Quilombo da Diversidade”, veio a assinatura para cobrar providências no caso da deputada Isa Penna (PSOL), vítima de assédio sexual cometido no plenário da assembleia. “Considero meu mandato como uma missão”, explica a parlamentar do PCdoB que, aos 76 anos, está no terceiro mandato. Ela não deixa esconder a frustração com o episódio: “Está tudo regredindo, o retrocesso está muito grande”.

“Não falo o nome desse cara aí nem o daquele da Fundação Palmares”, responde num tom grave, quase ríspido, sobre Jair Bolsonaro e Sérgio Camargo – este último removeu em novembro de 2020 o nome de Leci Brandão, juntamente com Elza Soares e Gilberto Gil, da lista de personalidades negras da entidade.

A cantora perdeu a mãe de 96 anos no final de julho de 2019 e, desde então, a tristeza lhe ronda, seja pela saudade, seja pela ausência das pessoas queridas que a pandemia lhe trouxe. Mas, artista de primeira grandeza que é, resolveu combinar esperança e reflexão numa escolha própria para o momento, de ansiedade por mudanças, a música Abre Alas, de Ivan Lins: “Abre alas pra minha folia / Já está chegando a hora (…) Apare teus sonhos que a vida tem dono / Ela vem te cobrar / A vida não era assim, não era assim”.

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