Clique e assine a partir de 9,90/mês
Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Sábado

O povo não veio. E vida seguiu.

Por Elton Simões - 9 abr 2018, 14h00

Um dia disseram que a história sempre esse repete. Primeiro com tragédia. Depois como farsa. Quem pensou não conhecia o Brasil. Aqui a história não precisa de mais tragédia. Ela não se repete. E tem sempre jeitão de farsa.

O país tropical é onde a farsa prospera. Acostumados que estamos com a fraude, permanecemos incapazes de dedicar a ela o tratamento devido. A gente fica mesmo mesmerizado com a encenação com cheiro de farsa, jeito de farsa e voz de farsa. Talvez porque seja farsa mesmo.

Precisamos ainda subir muitos degraus civilizatório para entender as noções básicas de cidadania e estado de direito. Ou pelo menos uns poucos que nos permita entender que a prisão após a condenação é não somente esperada, mas natural. Seria assim em lugares que fazem sentido.

Não no país tropical. Talvez embriagados pelo suco da jabuticaba discutimos a concessão de privilégios usando como argumento a igualdade perante a lei. A gente faz muito se auto dispensou de fazer sentido. Por isso somos o paraíso dos juristas. Gente que, por acreditar em nada, diz qualquer coisa.

Continua após a publicidade

Com um pouco mais de noção de cidadania, não perderíamos 2 dias dando importância a eventos de outra maneira corriqueiros. E que, francamente, não fazem ou farão a menor diferença. Não escrevemos história. Preferimos dedicar nosso talento literário as notas de rodapé. Com quase certeza, vai ser lá que estarão eventos recentes. Se tanto.

Enquanto o tempo e a atenção do distinto público eram devidamente desperdiçados em todas as formas de mídia, a vida seguia. Fora daquele quarteirão onde se concentravam as lentes, tudo correu normalmente.

Talvez por isso, a farsa tenha se autoconsumido tão rapidamente. Notaram que os bondes permaneciam em cima dos trilhos. E que o tempo passava. E que não há nada como o tempo para passar.

E perceberam que já era sábado. O dia do presente. E nada mudava. O povo não veio. E vida seguiu. Indiferente a farsa já cansativa. Impossível fugir a essa dura realidade. Todos os bares estavam repletos de homens vazios. Todos os namorados de mãos entrelaçadas. Todos os maridos funcionando regularmente. Todas as mulheres atentas. Porque era sábado.

Continua após a publicidade

E ali, já com a audiência cansada da farsa, ao vivo dava para ver os tatos abandonando o navio. E, afinal, virar a chave. E dedicar o episódio ao rodapé da história. De onde nunca deveria ter saído.

 

Elton Simões mora no Canadá. É President and Chair of the Board do ADR Institute of BC; e Board Director no ADR Institute of Canada. É árbitro, mediador e diretor não-executivo, formado em direito e administração de empresas, com MBA no INSEAD e Mestrado em Resolução de Conflitos na University of Victoria. E-mail: esimoes@uvic.ca . 

Publicidade