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O olhar de esperanças

O futuro ensaiava harmonia ambiental, desenvolvimento social, vida em segurança

Por Gaudêncio Torquato 3 fev 2019, 10h00 | Atualizado em 30 jul 2020, 19h59
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Quando o olhar de esperanças começava a enxergar os umbrais do futuro, uma paisagem devastada por lama e rejeitos de ferro em território adornado por montanhas desvia a vista para uma horrenda fotografia do passado. Carlos Drummond de Andrade, em 1984, já descrevia: “O Rio? É doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse/Mais leve a carga. Entre estatais/E multinacionais/ Quantos ais!”

O futuro ensaiava harmonia ambiental, desenvolvimento social, vida em segurança, com o homem tirando a riqueza da terra para seu pibizinho de felicidade. Era isso que se via pelas frestas do amanhã: um país retornando ao porto seguro, depois de anos de borrascas que sugavam as energias de seu povo.

O passado contém curvas, artimanhas e aquele jeitinho herdado desde remotos tempos: a mamata nas tetas do Estado, o nepotismo, a apropriação indevida dos bens públicos, o amaciamento de leis, a devastação da natureza, as tragédias anunciadas com seus mortos enfileirados, o conluio político, a dinheirama no balcão de recompensas, os Poderes sob permanente tensão, entre outras mazelas.

Até chegamos ao lema do comandante dessa que se apresentava como empresa-orgulho do Brasil, a Vale:“Mariana nunca mais”. Há 3 anos, o rompimento da barragem de Fundão em Mariana conferiu ao Brasil a marca do maior impacto ambiental da história. O maior do mundo. A barragem pertence à Samarco, propriedade da brasileira Vale e da anglo-australiana BHP Billiton. O desastre de Mariana se repetiu.

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E o que se enxerga então? Desculpas esfarrapadas. Explicações que davam a barragem como segura. Bloqueios de bilhões da empresa, que retornarão pelo caminho longo do Judiciário. Endurecimento da legislação? Jair Bolsonaro e Romeu Zema, governador de MG, prometeram em campanha o contrário: amaciar, flexibilizar para desburocratizar. O novo governo está numa encruzilhada.

Sob a égide privatista, no guarda-chuva do  liberalismo da equipe econômica, o meio ambiente não deverá ser tão protegido. O agronegócio esticará seus braços sobre paisagens verdejantes. Pode até se reaver o projeto arquivado no Senado sobre endurecimento das leis ambientais. Receberá endosso das bancadas duras? Difícil.

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Não há, então, fresta na janela do amanhã para fazer brotar as esperanças? Só se for a do ministro Sérgio Moro, da Justiça, de onde  descortinaríamos melhor visão. Mas ele terá que aguentar o tranco e sustentar a força investigativa do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), de olho nas contas do senador eleito Flávio Bolsonaro. Moro está entre a cruz e a caldeirinha. Se o órgão for em frente, crescerá a montanha de suspeitas sobre o filho do presidente e outros protagonistas do jogo da “rachadinha”.

Assim, o futuro continua preso ao cordão do passado. Esses laços são fortes e nossa cultura política se banhará por muito tempo em fontes contaminadas, talvez soterrada em lama e rejeitos em todo o território. Assepsia, só no longuíssimo prazo.

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Até lá, com paciência e persistência e, sobretudo, fé, poderemos empurrar o balão da política na direção de novos ventos.

 

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Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político 

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