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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Morreu na contramão do desejo coletivo de não ser incomodado

Se vidas pouco importam em um país tão desigual e violento como o Brasil, por que mortes importariam?

Por Ricardo Noblat Atualizado em 1 dez 2020, 05h33 - Publicado em 1 dez 2020, 08h00

Procura-se o corpo de Carlos Eduardo Pires de Magalhães, 40 anos de idade, que apesar do sobrenome capaz de inspirar certa nobreza ou pompa era um morador de rua da Zona Sul do Rio de Janeiro viciado em crak e em outras drogas. Negro e baixo, sempre cortês com os que o abordavam, atendia sem aparentemente se incomodar pelo apelido de Macaquinho.

A última vez que ele foi visto com vida foi na sexta-feira passada às 7h20m ao ingressar na Confeitaria e Lanchonete Ipanema, na esquina entre as ruas Joana Angélica e Visconde de Pirajá, quase em frente à Praça Nossa Senhora da Paz e a dois quarteirões da praia mais cantada em prosa e verso. Sentindo-se mal, pedia ajuda em voz alta. Estava à beira da morte.

Tossia muito e sua camisa estava encharcada de suor e sangue. Queria apenas que pelo amor de Deus chamassem uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Os funcionários da confeitaria ignoraram seu apelo, bem como os clientes que faziam compras ou que àquela hora tomavam café no balcão ou sentados em torno de pequenas mesas.

É impossível imaginar que ninguém ali dispusesse de um celular ou de tempo para digitar o número 192. Macaquinho acabou morrendo alguns minutos depois na contramão do desejo das pessoas de não serem incomodadas. Uma alma caridosa que, ao entrar na confeitaria, deparou-se com o corpo estendido no chão, cobriu-o com um saco preto de plástico.

E ali o corpo permaneceu por mais de duas horas jogado num canto e cercado de cadeiras para que não atrapalhasse o fluxo normal dos negócios. Não se sabe quem, finalmente, deu-se conta do que ocorrera e acionou o rabecão da Defesa Civil. A operação de recolhimento do corpo foi rápida e discreta diante da indiferença coletiva. As cadeiras voltaram aos seus devidos lugares.

Carlos Eduardo Pires de Magalhães, o Macaquinho, sofria de tuberculose em estágio avançado, segundo alguns dos seus companheiros de rua. A eles dava impressão de ser um homem culto, bem educado e que lera muito. Costumava fazer duas refeições por dia pagas por uma senhora das redondezas. Tinha um celular para falar com a mãe.

Seu corpo foi levado para o Hospital Miguel Couto, na Gávea, informou o Corpo de Bombeiros, mas não chegou ao Instituto Médico Legal. A Secretaria municipal de Saúde disse que o corpo não deu entrada em nenhum hospital de sua rede. Estava desaparecido até ontem à noite. Vida que segue – a dos outros, porque a de Macaquinho apagou-se como se ele fosse invisível.

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