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O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Enquanto há tempo

Silêncio perigoso

Por Ricardo Noblat 5 nov 2019, 07h00 | Atualizado em 30 jul 2020, 19h20
Enquanto há tempo Priorizar nos meus resultados Google

Imagine-se jogando uma partida de xadrez. Você joga com as peças brancas ou as pretas. Seu adversário é o Poder.

Você é um bom jogador. Pratica há anos. Leu os livros dos grandes mestres. Participa de torneios. E costuma sair-se bem.

Mas enquanto você respeita as regras do jogo, o Poder, não. Seu Bispo só se move na diagonal. O do Poder, como ele quer.

Seus peões só avançam uma casa de cada vez. Os do Poder avançam quantas casas ele quiser, podem recuar ou andar de lado.

Ah, a Rainha – a peça mais importante no tabuleiro! Você joga com uma. O Poder joga com duas desde o início da partida.

Impossível que você vença. Simplesmente impossível. A não ser que o Poder cometa um erro estúpido, indigno de um iniciante.

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Talvez com algum exagero, é o que acontece no confronto desigual entre a imprensa e o Poder que desrespeita as regras do jogo.

Jornalista não pode mentir. Pode errar – e se erra, é obrigado a reconhecer que errou e a pedir desculpas.

O Poder mente, mente muito, mente descaradamente. E se flagrado mentindo, joga a culpa na imprensa. Diz que foi mal interpretado.

Pergunte a um governante sobre seus erros. Ele gagueja e, quando admite ter errado, cita os erros mais irrelevantes.

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É mais fácil lidar com um governo ditatorial do que com um governante eleito que usa a mentira como a sua maior arma.

A ditadura diz o que pode e o que não pode ser publicado – e, quando nada, ficamos sabendo das coisas que ela quer esconder.

O governante mentiroso é mais letal porque mente para esconder, mas mente também para enganar os que acreditam nele.

O objetivo de um governante mentiroso é desmoralizar a imprensa para enfraquecê-la, e assim alargar os limites do próprio poder.

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Onde existe democracia sem uma imprensa livre e robusta? Onde? Uma imprensa castrada é antessala da ditadura.

O que pretende um governante que por hábito ataca a imprensa como instituição, agride repórteres com desaforos, corta assinaturas de jornais e ameaça os seus anunciantes?

Tudo, menos respeitar o Estado de Direito sob o qual foi eleito. Ao fim e ao cabo, por mais que não confesse, quer destruí-lo para poder jogar sozinho.

Se a oposição, por fraqueza ou temor, não o incomoda, ele precisa de outros supostos adversários para se bater e derrotar.

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O confronto é a vitamina que o faz sentir-se vivo, e forte, e indestrutível, e capaz de alcançar o que almeja.

Pouco se lhe dá se a maioria dos governados discorda dos seus propósitos. Basta-lhe uma fração aguerrida de devotos e… O silêncio.

O silêncio dos inocentes. O silêncio dos culpados. O silêncio dos omissos. O silêncio dos que se negam a enxergar. O silêncio dos oportunistas. O silêncio dos covardes.

O silêncio é o principal aliado de um governante com vocação de ditador. E, se um dia, o silêncio vier a se quebrar, poderá mesmo assim ser muito tarde.

Então dará lugar ao choro dos arrependidos e à euforia dos insensatos.

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