
Somada às imagens de seu enterro no Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco (Campo Santo) – restrito a parentes, poucos vizinhos e amigos, em razão das normas de isolamento por causa da pandemia coronavírus –, a notícia da partida de Clementino Rodrigues, Riachão, emociona e faz pensar: se vai o alegre e sempre aparentemente feliz compositor e cantor da Cidade da Bahia – “um pilar do samba brasileiro”, na definição do El País – que morreu aos 98 anos, dormindo, em casa no bairro do Garcia. Sua despedida produz comovente metáfora sobre o dilema de um tempo temerário de mal que ataca a todos: a vontade sair para cumprir o dever do abraço e empatia na dor da perda, que conflita com a razão da ciência médica que nos manda ficar em casa.
Assim, recolhido no apartamento de meu isolamento, vejo imagens que honram e fazem justiça ao morto, e me comovo: as palmas, os vivas, as lágrimas – no cemitério no bairro da Federação, bem perto do casarão onde o artista sempre morou – misturadas com o canto emocionado – de “Até Amanhã”, “Cada Macaco no seu galho”, “Praça Cayru” (“o retrato fiel da Bahia, baianas vendendo com alegria, coisinhas gostosas de dendê, acarajé…) – entoado pelos poucos que ali estão. Enquanto recordo do sambista e ser humano raro, imbatível cronista musical do cotidiano de sua cidade, da sua gente e de seu tempo, que acaba de nos deixar.
Conheci Riachão nos anos 60, logo ao chegar na capital, no início da minha juventude de rapaz sertanejo, para estudar no lendário Colégio Estadual da Bahia (Central), antes do vestibular na UFBA, onde cursei Direito e Jornalismo, nas duas escolas federais, o que era possível antes da reforma universitária. Através do colega de estudos jurídicos e amigo Ivan Solon (depois delegado da Polícia Civil da SSP-Ba) atual parceiro do sambista carioca Bezerra da Silva, em composições mordazes, sem perder o bom humor, a exemplo de “Defunto Cagoete”. Solon morava no Garcia, na vizinhança do artista popular já em ebulição criativa na sua inesgotável usina de criador musical, malandro trabalhador e boêmio até a morte. Isso às vésperas de explodir, na capital baiana, uma revo lução na música popular brasileira, da qual Riachão foi matriz.
Foi a caminho da casa de Ivan Solon, depois da faculdade – para uma tarde e noite de conversas, cerveja e violão – que me vi pela primeira vez diante de Clementino Rodrigues, Riachão, que chegava, coincidentemente, à porta a sua casa. A mesma que inspirou versos de “Até Amanhã”, para mim, uma das mais belas e emblemáticas criações do artista que partiu como um anjo da alegria e da felicidade, em dias tão planetariamente infelizes: “Tim, Tim, Tintim, no portão/ Lá de dentro respondeu/ Quem bate aí ?/ Amor sou eu!”. Soteropolitano da gema, nascido em 14 de novembro de1921, Riachão era assim no tempo que o conheci e foi assim, até o sepultamento, neste a no amargo do covid-19.
Como jornalista, e morador da Cidade da Bahia, tive inúmeros encontros com ele, ao longo de décadas: em A Tarde, no Jornal do Brasil (sucursal), no bairro da Saúde ( de Gordurinha, outro Bamba), onde morei, na Cantina da Lua de Clarindo Silva e de todos os boêmios, em carnavais de rua, na troça de Momo na Mudança do Garcia. Posso afirmar: a tristeza pode mandar em outros sambistas e compositores, mas jamais foi senhora da vida e do samba de Riachão. Ninguém me contou, eu vi. Que viva Riachão, alegre e amado. Para sempre.
Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitors.h@uol.com.br