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A vitória do não

Vencerá a disputa presidencial aquele que for menos rejeitado

Por Mary Zaidan 30 set 2018, 07h02 | Atualizado em 30 jul 2020, 20h18
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Seja qual for o resultado das urnas no próximo domingo, 2018 se consolida cada vez mais como a eleição do não.

Ao contrário da lógica do voto na melhor alternativa, vencerá a disputa presidencial aquele que for menos rejeitado, que conseguir angariar um número menor de nãos. E mesmo que os fanáticos de um lado e de outro discordem disso, exorcizar o não será a principal tarefa de um lado e de outro caso se confirmem as pesquisas que colocam Jair Bolsonaro e Fernando Haddad no segundo turno.

O não impera absoluto. Nos proselitismos e nas baixarias reincidentes nas redes sociais, nas hashtags #elenão para Bolsonaro – que ganhou adeptos em todos os cantos, ultrapassando as fronteiras do país -, e #elesnão para ambos. Nos anúncios eleitorais no rádio e na TV, no discurso dos candidatos.

O sucesso do não veio se desenhando há pelo menos dois anos, quando a Justiça eleitoral não deu importância às campanhas antecipadas de Lula e Bolsonaro. Os dois não deram a mínima para a legislação e os responsáveis por puni-los também não quiseram fazê-lo. Resultado: foram beneficiados pelo não cumprimento da lei.

O não continuou fazendo história no episódio eleitoreiro de Lula, que disse não à ordem de prisão, mantendo sobre si mais de 12 horas de cobertura televisiva ao vivo, essencial para o script de vitimização que passou a dar o tom eleitoral do PT. Ali cravou-se o slogan “eleição sem Lula é fraude”, avalizando a candidatura de um não-candidato, sabidamente impedido pela Lei da Ficha Limpa, embora a oficialização disso pelo TSE só viesse depois de mais de três meses.

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Advérbio de negação transformado em prefixo, o não-candidato Lula operou forte quanto aos nãos que o atormentam. E o fez mais e melhor do que os demais concorrentes.

Da cadeia, indicou Haddad como sua marionete. Coordenou a instalação de seu poste e as ações para alianças informais com gente do PMDB, como José Sarney e Renan Calheiros. E, principalmente, determinou o que não poderia ser feito: não seriam permitidas críticas ao escolhido; a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, não poderia mais falar; e não seria tolerada, em hipótese alguma, qualquer contra-ordem.

O capitão reformado está longe de conseguir tal ordem unida. Embora na liderança no embate eleitoral, luta aguerridamente para conter os seus.

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Mas também ele se fez pelo não. Sua ascensão se deu nos grupamentos de não peremptório ao PT, boa parte deles presente nas ruas do pré-impeachment de Dilma Rousseff. E de elementos de negação adicionais: não ao comunismo (como se isso ainda existisse), não aos sociais-democratas, não aos movimentos de defesa de direitos humanos.

Outros nãos fazem parte da agenda dos dois: não à liberdade de imprensa, não às diferenças de opinião e ao contraditório.

Tanto para o PT quanto para o time de Bolsonaro, aqueles que não comungam de suas religiões são cartas fora do baralho, gente menor, inimigos.

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Difícil alguma construção quando a premissa é o não.

Aqueles que pregavam que eleição sem Lula seria fraude hoje negam o que diziam e consideram legítima uma eventual eleição de Haddad. E Bolsonaro, lider nas pesquisas, reafirma que não aceitará o resultado se não vencer.

Podem até dizer o contrário, mas ambos vão às urnas em prol da não-democracia.

Mary Zaidan é jornalista. E-mail: zaidanmary@gmail.com Twitter: @maryzaidan  

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