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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A revolução da alegria

O maio parisiense abalou os alicerces e valores da sociedade patriarcal, sisuda e machista.

Por Hubert Alquéres 9 Maio 2018, 14h00

Sob o signo de aquários, um vento libertário varreu o planeta e fez de 1968 um ano ímpar na história. O maio parisiense, com sua revolução geracional, abalou os alicerces e valores da sociedade patriarcal, sisuda e machista.

Em Paris estudantes erguiam barricadas. Nos EUA queimavam em praça pública a convocação para a Guerra do Vietnã. No Brasil caminhavam contra o vento na passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. E no México eram massacrados na Plaza de Las Três Culturas, em Tiateloico. Os ventos que sopraram em 1968 até hoje estão por aí. O mundo não voltou a ser o mesmo após o maio parisiense, em matéria de valores e costumes.

A Revolução da Alegria, como é chamado o maio parisiense, teve início no dia 2 daquele mês, na universidade de Nanterre, onde estudava Daniel Cohn Bendit, que viria a ser sua principal liderança. Rapidamente adquiriu densidade, com adesão dos trabalhadores à revolta estudantil.

O austero Partido Comunista de George Marchais foi surpreendido pela irreverência dos estudantes e no início foi contrário à revolta, mas no dia 13 de maio aderiu e sua central convocou uma greve geral. No auge do movimento paredista Paris ficou sem transportes públicos e outros serviços. Seis milhões de grevistas ocuparam 300 fábricas.

Parecia a concretização da propalada aliança “operária-estudantil” tão sonhada pelo intelectual trotskista Alain Krivine, um dos gurus da revolta estudantil.

Durante um mês a França esteve paralisada, mas Charles De Gaulle reagiu com a convocação de eleições para junho. A partir daí o maio francês virou história. É possível revisitá-la por meio do twitter “Veja 1968 Agora”, de Ricardo Noblat, onde estão registrados fatos memoráveis daqueles dias.

A juventude não confiava em ninguém com mais de 30 anos, com raríssimas exceções. O conflito era de gerações: “Professores, sois tão velhos quanto a vossa cultura, o vosso modernismo nada mais é que a modernização da polícia, a cultura está em migalhas”.

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Não se visava uma tomada física do poder, mas sim a “imaginação no poder”.

E imaginação é o que não faltou. A começar pelas frases pichadas nos muros da cidade. Diziam os estudantes: “A Revolução tem de ser feita nos homens, não nas coisas”, “Sejam realistas, exijam o impossível”, “É proibido proibir”, “O sonho é realidade”, “Destruam as engrenagens”.

“O que queremos é que as ideias voltem a ser perigosas”, dizia o escritor Guy Debord. Crítico aos blocos ocidental e soviético, Debord deu embasamento teórico à revolta estudantil, apesar de ser um “velho” de 37 anos.

A Revolução da Alegria foi de tudo um pouco. Revolução gerencial, cultural, sexual, de valores e costumes. Derrubou tabus, mas guardou dentro de si uma enorme contradição: ao mesmo tempo em que se pretendia libertária, foi influenciada pelo trotskismo, o maoísmo e o guevarismo, correntes de pensamento totalitário.

Os estudantes glamourizavam a Revolução Cultural chinesa, como símbolo do poder jovem, enquanto na China os guardas vermelhos empapavam-se de sangue, torturando e assinando milhões de pessoas, sob o mando do “grande timoneiro” Mao Tsé-Tung. E o Che Guevara venerado nas barricas parisienses era o mesmo que levou homossexuais e dissidentes para as masmorras cubanas.

Lado triste da alegria revolucionária, que ainda perdura na cabeça de muitos.

 

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo 

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