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Murillo de Aragão Por Murillo de Aragão

Para um 2021 melhor

Os quatro grandes desafios de Bolsonaro no ano que vem

Por Murillo de Aragão Atualizado em 11 dez 2020, 09h02 - Publicado em 11 dez 2020, 06h00

Historicamente, o terceiro ano de mandato do presidente da República costuma ser de potenciais avanços estruturais. Isso porque é um período sem eleições, o que afasta as pressões dos debates políticos. Mas a concretização dos avanços depende de alguns fatores: ter uma boa agenda, possuir capacidade para articulá-la, construir uma base de apoio, saber se comunicar. Não são desafios triviais.

Neste fim de ano, esses quatro fatores, que determinarão a intensidade e a qualidade do governo em seu terceiro ano, apresentam sérias instabilidades. A primeira reside no fato de que a agenda propositiva está contaminada pelo combate à pandemia de Covid-19, cujos efeitos estão longe de terminar. Tal fato coloca o mundo político em conflito, atrapalhando a articulação de saídas para os impasses econômicos e sociais postos pela própria pandemia. O conflito gera efeitos de curtíssimo prazo (na disputa pelas presidências do Congresso) e também de médio prazo (na sucessão presidencial de 2022). Tudo ainda é alimentado pela rivalidade política em torno da primazia de vacinação contra a Covid-19. Sem definição sobre as eleições sucessórias no Congresso, a questão da base política do governo também fica pendente até o início de março de 2021. Só a partir da eleição das presidências da Câmara e do Senado, o governo redefinirá sua base, por meio de uma reforma ministerial.

Permanece a questão da comunicação. O governo sabe comunicar muito bem para os seus aliados originais, mas nem tanto para aqueles que olham apenas o desempenho, e não o debate ideológico que se instala. Existem deficiências em mostrar para o grande público o que se pretende fazer para a retomada pós-pandemia.

“O presidente Jair Bolsonaro vai governar para ser popular ou para enfrentar nossos desafios?”

A sorte é que, seguindo uma tradição iniciada na redemocratização, os próprios governos têm sido seus maiores adversários: aliados ou potenciais aliados terminam criando mais dificuldades que a oposição. Sob o ponto de vista do governo, seria ainda pior se as oposições estivessem fortalecidas e unidas.

Para avançar em sua agenda em 2021, o governo tem de se sair bem nos quatro desafios que mencionei. A seu favor existem três fatores que vão ajudá-lo no início do ano: a popularidade ainda positiva, a vocação reformista do Congresso e a divisão da oposição. Mas tais aspectos podem não perdurar.

No entanto, sem comprovar capacidade de articulação, as dificuldades vão ser crescentes, devido às incertezas na economia e seus eventuais reflexos negativos na popularidade do presidente. O que nos coloca diante de um dilema: o presidente Jair Bolsonaro vai governar para ser popular ou para enfrentar nossos desafios?

Como a cenografia da política em 2021 apresenta aspectos únicos provocados pela maligna aparição da pandemia e pelas contradições internas do governo, esperar grandes avanços seria excesso de otimismo. Porém, o futuro é imprevisível. Pode ser que meu ceticismo não se concretize. O acaso sempre aparece para contrariar as previsões. Esperamos que a boa fortuna nos abençoe, tornando o novo ano bem melhor do que este, que ora se encerra.

Publicado em VEJA de 16 de dezembro de 2020, edição nº 2717

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