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Murillo de Aragão Por Murillo de Aragão

Muito além de 2021

A convalescença da Covid-19 será longa e repleta de incertezas

Por Murillo de Aragão Atualizado em 20 nov 2020, 10h24 - Publicado em 20 nov 2020, 06h00

Aqui mesmo, em janeiro passado, eu constatava que a Covid-19 (que ainda não tinha esse nome) seria um enorme desafio para a sociedade. Dadas as suas proporções catastróficas, a pandemia provocou mudanças que ainda não estão consolidadas. Agora, às portas de um novo ano, volto ao tema a partir de algumas considerações que devem ser feitas.

A primeira refere-se ao curtíssimo prazo: a incerteza quanto a passarmos ou não por uma segunda onda de contaminação, o que já se desenha na Europa e nos Estados Unidos. Também teremos esse tipo de fenômeno no Brasil? A mera expectativa já é um problema. Uma segunda onda quebraria o ímpeto da retomada econômica, ao demandar políticas de amparo social e socorro para setores que já estão claudicantes.

A segunda consideração é que a questão da saúde pública está longe de ser resolvida, já que não temos vacinas contra a Covid-19. Enquanto não existirem, de verdade, imunizantes disponíveis para largos contingentes da população, a questão permanecerá com repercussões políticas, econômicas e sociais.

Vamos imaginar que em meados do primeiro semestre de 2021 as vacinas comecem a ser oferecidas. O efeito psicológico será imediato e extraordinário, mas o efeito prático na vida das pessoas precisará de certo tempo até que o número de imunizados contra o novo coronavírus seja robusto.

“Entre as expectativas políticas e fiscais, o governo ainda trafega em uma pinguela”

A terceira consideração também se relaciona às vacinas. Serão elas recorrentes, como as utilizadas contra a gripe, ou serão aplicadas apenas uma vez? Os que já tiveram a doença estão imunizados ou não? Essas são interrogações que, para ser respondidas, influenciarão decisões de políticas públicas e econômicas. Em 2021, o grande desafio será a vacinação em massa com um produto farmacêutico que ainda não sabemos qual será.

A quarta consideração é que — com ou sem vacina — o mundo não voltará ao “normal” de antes. O trabalho remoto prosseguirá. As entregas de produtos e serviços também. Os megaeventos e o turismo continuarão afetados por anos seguidos. No Brasil, a economia informal será atingida, pressionando as políticas públicas. As repercussões serão profundas na vida de todos.

O que exatamente preocupa no caso brasileiro? Três aspectos se destacam. O primeiro é a politização do debate sobre a eficácia das vacinas e sobre a sua obrigatoriedade ou não, o que influi negativamente no esforço necessário para enfrentar o problema. O segundo aspecto envolve a incerteza quanto ao caminho a ser adotado para sair da armadilha fiscal do auxílio emergencial. Entre as expectativas políticas e fiscais, o governo ainda trafega em uma pinguela. O que fazer? E como fazer sem destruir, ainda mais, a credibilidade fiscal do país? O terceiro aspecto refere-se à ausência de um conjunto de políticas econômicas que alavanque a retomada. Sem uma abordagem estruturada, a retomada pode ser demorada.

Estamos preparados para a longa convalescença da Covid-19 aqui no Brasil? Acho que não. Tudo indica que os efeitos da pandemia prosseguirão para além de 2021 e chegarão, no mínimo, a 2022, ano da sucessão presidencial. Continuaremos a ter um cenário complexo e desafiador.

Publicado em VEJA de 25 de novembro de 2020, edição nº 2714

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