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Pesadelo logístico: linhas de abastecimento entupiram e navios param

O problema é mais grave nos Estados Unidos e na Inglaterra, alimentando a temida cadeia que produz inflação e a “falta de tudo”

Por Vilma Gryzinski 13 out 2021, 09h22

Para onde quer que se olhe no mundo, a Covid-19 plantou armadilhas que instabilizam os fundamentos da economia.

A crise do momento – sem que isso signifique que a escassez de energia e o aumento da inflação tenham sido escanteados – é no conjunto logístico formado por transporte marítimo de cargas, descarga e distribuição por terra.

Um número resume o tamanho do problema: quase meio milhão de contêineres – a “caixa que mudou o mundo” e alimentou a globalização – aguardam para ser descarregados de 70 navios que não conseguem ser processados no complexo portuário de Los Angeles e Long Beach, o maior dos Estados Unidos, por onde passa metade das importações feitas pela maior economia do mundo.

O problema é tão premente que gigantes do varejo como Walmart, Target e Home Depot estão fretando seus próprios navios para operar em portos menores e menos congestionados. A proximidade das festas de fim de ano torna a questão mais premente. Sem mercadorias para um público ávido por compras e celebrações depois que o pior da pandemia já passou, a melhor estação do ano será perdida.

O fenômeno está sendo chamado, à maneira americana de comparar tudo com filmes-catástrofe, de “containergeddon”.

No Reino Unido está acontecendo a mesma coisa. Os portos estão lotados de contêineres, os cargueiros fazem fila e faltam caminhoneiros para desafogar a cadeia de transporte. Há empresas deslocando navios para a Europa continental, onde as cargas são transportadas por embarcações menores, dirigidas a portos menos problemáticos.

Com o sistema congestionado, os custos disparam. Em comparação com maio do ano passado, o custo do frete de contêineres dos Estados Unidos para a Europa aumentou 303%. Da China e do Leste Asiático para a costa oeste dos Estados Unidos, 713%.

A falta de motoristas de veículos de carga já provocou desabastecimento de gasolina nos postos britânicos, uma espécie de prévia do que ainda pode estar por vir.

Países da União Europeia atribuem tudo ao Brexit, apenas um dos componentes da crise de abastecimento. 

Jeremy Warner avisou no Telegraph que a mal disfarçada alegria de muitos – especialmente franceses, claro – com os problemas dos ex-parceiros vai durar pouco: “O Reino Unido apenas largou em primeiro lugar num fenômeno que está prestes a engolfar todo o continente europeu e grande parte da América”.

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“O Brexit pode ter tornado as coisas um pouco piores, mas não está na raiz dos problemas do Reino Unido, e tampouco está a negligência em garantir a segurança energética. Mais espaço de armazenamento teria mitigado os problemas por algum tempo, mas, na falta de preparativos para enfrentar um cerco de um ano, não os teria neutralizado”.

“O problema primário está na disparidade entre demanda, que deu um salto enorme à medida que as economias se recuperaram da paralisação forçada da pandemia, e oferta, que não se recuperou na mesma velocidade”.

Ou seja, o mecanismo mais fundamental do funcionamento das economias engripou.

O outro componente é a falta de mão-de-obra – Jeremy Warner calcula um “buraco” de 80 mil caminhoneiros só na Alemanha, número que pode chegar a meio milhão.

A escassez de trabalhadores também afeta, primordialmente, bares e restaurantes, tradicional fonte de empregos temporários que agora não estão sendo preenchidos. Nos Estados Unidos, quase 900 mil pessoas deixaram o setor atraídas por empregos mais me pagos. 

Sem contar as que estão repensando a vida depois da pandemia. Ao todo, no Reino Unido, há mais de 650 mil pessoas que simplesmente não voltaram ao mercado de trabalho depois do pior da doença.

“Os americanos estão entrando numa nova fase da economia pandêmica, na qual o PIB cresce, mas também sofremos com a escassez de um número impressionante de coisas – kits de teste, autopeças, semicondutores, navios, contêineres, trabalhadores. É a Falta de Tudo”, escreveu Derek Thompson na Atlantic.

“As cadeias de abastecimento dependem de contêineres, portos, ferrovias, armazéns e caminhões. Cada um dos estágios dessa linha de montagem internacional está vindo abaixo à sua própria maneira. Quando a cadeia global de abastecimento funciona, é como um sistema lindamente invisível de dominós caindo para a frente. O atual caos nos lembra que os dominós também podem cair para trás”.

“Tudo o que pode dar errado está dando errado ao mesmo tempo”, resumiu para a Bloomberg Isaac Larian, o dono da MGA Entertainment, gigante dos brinquedos e jogos. “Estou há 43 anos no ramo e nunca vi nada igual”.

Tradução: quem puder, antecipe as compras de Natal porque o mecanismo de oferta e demanda poucas vezes esteve tão exemplarmente demonstradas nas vidas do planeta inteiro.

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