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Nova onda: menos alarmismo

E os confinamentos são recebidos com oposição maior

Por Vilma Gryzinski - Atualizado em 25 set 2020, 10h47 - Publicado em 25 set 2020, 06h00

“Eu não trivializo o vírus nem o dramatizo”. Com essas simples palavras, o epidemiologista alemão Hendrik Streeck, da Universidade de Bonn, sintetizou o que pode ser considerada a reação mais equilibrada à pandemia entre todos os países desenvolvidos. A Alemanha não seguiu nem a estratégia relativamente relaxada da Suécia, que está sendo recompensada agora por um nível mais baixo de contágios, mas deixou um número alto de mortes, nem os confinamentos muito estritos, que funcionaram para evitar o colapso dos sistemas de saúde e, diante do ressurgimento das infecções, voltam a ser acionados.

A equanimidade da Alemanha é invejável e, a essa altura, irreproduzível. Ao contrário do que aconteceu quando o vírus explodiu na Europa e, diante da dramaticidade de uma doença desconhecida, provocou um alto grau de conformidade com as medidas de restrição da livre movimentação, os ânimos nessa segunda onda estão exaltados e divididos. Não é impossível falar num espírito de revolta anticonfinamento. Em países como Israel e Espanha, já total ou parcialmente trancafiados de novo, predomina o modelo clássico de protestos de esquerda contra governos de direita (no caso da Espanha, a nível estadual).

O caso mais interessante é o da Inglaterra, onde a revolta é de direita contra direita. O governo de Boris Johnson, um conservador que pretendia modernizar a ideologia e o partido, está deixando eleitores e influencers políticos simplesmente enlouquecidos. Os revoltados acham que está tudo errado e que reativar medidas como o trabalho remoto, além da imposição de um toque de recolher às 10 da noite para bares e restaurantes, vai quebrar as pernas de uma economia já cambaleante, sem conseguir controlar os contágios.

“O racha agora está abertamente declarado também entre cientistas, acadêmicos e pesquisadores”

O racha agora está abertamente declarado também entre cientistas, acadêmicos e pesquisadores, inclusive das grandes universidades. Dois conhecidos especialistas de Oxford lideraram um abaixo-assinado, endossado por um total de 32 nomes, argumentando que 89% das mortes pelo novo coronavírus ocorrem na faixa acima de 65 anos e 95% nos já portadores de doenças preexistentes, indicando que “o dano causado por políticas uniformes suplanta os benefícios”. Como é inevitável nos tempos atuais, seguiu-se um abaixo-as­sinado contrário, vindo dos mesmos ambientes de excelência do primeiro. A ideia de uma “Ciência” superpoderosa, reinando suprema entre seus conformes cultivadores, que já estava superada, agora rodou de vez. Vários dos signatários do primeiro abaixo-assinado são cardiologistas e oncologistas preocupados com os pacientes que deixaram de ser atendidos e tratados enquanto toda a infra-es­trutura de saúde se concentrava nos casos de Covid-19. Cálculos mais pessimistas falam até em 60 000 mortes precoces por câncer nos próximos anos como consequência.

E o que o professor alemão acha de tudo isso? “Chega de alarmismo”, diz Streeck. “A Covid-19 estará entre nós por um bom tempo e temos de aprender a viver com ela. Não podemos continuar a confinar nossas vidas e parar tudo”. Tem gente querendo importar o alemão.

Publicado em VEJA de 30 de setembro de 2020, edição nº 2706

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