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A direita pós-Trump

Foi-se um (falso) profeta, mas o público sensível a suas ideias, não

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 19 fev 2021, 10h32 - Publicado em 19 fev 2021, 06h00

Depois do baque sofrido pelo populismo de esquerda da era Lula-­Chávez, agora é a direita que precisa, como acontece com celebridades acossadas por alguma bobagem irrecuperável, se reinventar. A era Trump acabou — e não de forma inspiradora. Embora continue com impressionante popularidade junto às bases, e não apenas nos Estados Unidos, Donald Trump não pode escapar de dois fatos: a) perdeu a reeleição; b) enras­cou-se todo ao incitar uma manifestação que virou ataque ao Congresso, a suprema autossabotagem com que encerrou sua carreira na Casa Branca. “Ele ainda não se livrou de nada. Temos um sistema de Justiça criminal neste país. Temos a Justiça civil e ex-presidentes não são imunes a responder a ambos”, avisou o senador Mitch McConnell logo depois de votar contra a condenação de Trump no processo de impeachment, por achar que é um procedimento vazio de sentido, visto que inexistia a possibilidade de perda de cargo. Sem charme e sem carisma, o líder republicano no Senado fez algo raro em política: insurgiu-se contra um líder que tem as qualidades que faltam a ele, acompanhadas por defeitos proporcionalmente arrasadores.

Talvez seja necessário um certo distanciamento histórico para entender em profundidade como um ex-­apresentador de televisão e incorporador imobiliário nem sempre bem-su­cedido conseguiu capturar a imaginação de metade da população americana. Pelo poder de influência dos Estados Unidos, ele também se tornou o arquétipo mundial do antipolítico que “fala as coisas como elas são”, compra uma briga por minuto, não segue as regras do establishment, pula por cima das instituições. Num país onde elas são sistemicamente fortes, o salto final acabou em gol contra. Mas o público sensível ao populismo de direita, seja onde for, continua como sempre foi: gosta de armas e abomina bandidos, desconfia de políticas sociais sem contrapartidas, tem forte aversão aos exageros politicamente corretos e associa esquerda a corrupção, não só material, mas do próprio tecido social. E não precisa conhecer Hayek para intuir que a “fé na liberdade não deriva de resultados alcançáveis em circunstâncias específicas, mas na crença de que ela irá, na média, liberar mais forças para o bem do que para o mal”.

“Quem vai falar a essas camadas, cuja ascensão, no Brasil, marcou presença na eleição de 2018?”

Quem vai falar a essas camadas da sociedade, cuja ascensão, no Brasil, marcou uma presença tão impressionante na eleição de 2018? Falsos profetas proliferam no vácuo.

Sempre que a esquerda perde uma eleição importante, alguns poucos abnegados falam em autocrítica. Logo todo mundo muda de assunto. Perscrutar os próprios erros é uma das atividades mais desagradáveis que existem. Mas a direita — ou simplesmente os que já foram convencidos pela vida de que a esquerda sempre vai acabar liberando mais forças para o mal do que para o bem — precisa procurar uma nova cara. E ela não pode mais ser encimada por um topete tingido de loiro que desafia a lei da gravidade. E talvez, também, o código penal, como avisou o senador McConnell.

Publicado em VEJA de 24 de fevereiro de 2021, edição nº 2726

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