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Muito além de Maradona e Mafalda

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Capa do livro ‘Bienvenido’, do jornalista Paulo Ramos

Com tiradas inteligentes e questionadoras, a baixinha Mafalda é um símbolo das histórias em quadrinhos argentinas. Nem só da personagem criada pelo cartunista Quino, no entanto, vivem as HQs portenhas. É o que procura mostrar o livro Bienvenido – Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos (Zarabatana Books, 176 páginas, 36 reais). Com estilo leve e fluente, o jornalista Paulo Ramos apresenta um painel histórico do gênero no país – das tiras de humor descompromissado aos desenhos de teor político, passando pelo atual intercâmbio entre artistas brasileiros e argentinos.

De acordo com o autor, o livro surgiu de “um antigo estranhamento”. “Ficava muito incomodado em ter acesso a obras e autores norte-americanos, europeus e japoneses, geograficamente tão distantes de nós, e não saber quase nada sobre os quadrinhos de um país vizinho”, diz Ramos, logo no início do livro.

Bienvenido se lança, assim, na busca por abarcar o universo de traços e balões argentinos. E se sai bem. A leitura da obra oferece uma boa dimensão do que representam as “historietas” para os hermanos – tanto uma forma de arte rebuscada como um foco de resistência à opressão política.

À medida que compõe uma linha do tempo dos quadrinhos vizinhos, Ramos narra a história recente da Argentina, costurando conexões aqui e ali. O ponto alto dessa costura é a entrevista com Elsa Sánchez de Oesterheld, viúva do roteirista Héctor Germán Oesterheld. Elsa perdeu o marido e as quatro filhas para a ditadura argentina. Presos, eles nunca voltaram para casa.

“Como os desenhos dialogavam prioritariamente com a classe política, a relação entre os autores e as autoridades nem sempre foi harmônica”, explica Ramos, no livro. “A história da Argentina no século XX registra frequentes trocas de comando por meio de golpes militares. Na mesma medida, diários e chargistas conviveram, mais de uma vez, com o fantasma da censura e da liberdade de expressão restrita.”

Ramos, no lançamento de ‘Bienvenido’ na livraria Comic House, em João Pessoa (Foto de Fernanda Eggers)

Outra costura interessante, na obra, é aquela feita por artistas que vêm de lá para cá e vice-versa. O argentino Liniers, que assina a capa do livro, vem publicando seus títulos no Brasil. E o brasileiro Adão Iturrusgarai, pai da espevitada Aline, publicada em tiras no jornal Folha de S.Paulo, vive hoje na Argentina. Outro ponto dessa trama é a penetração, por aqui, dos livros da divertida Maitena, cartunista que lança um olhar ácido sobre as neuras femininas e, a partir de suas personagens, também sobre o universo masculino.

Paulo Ramos é autor de títulos como A Leitura dos Quadrinhos, da Coleção Linguagem & Ensino; e Quadrinhos na Educação, com Waldomiro Vergueiro. Bienvenido é seu primeiro livro-reportagem.

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  1. Comentado por:

    Mayara Itacaramby

    O livro é muito bem escrito e merece uma leitura! O meu já foi lido e agora, merece um lugar de destaque na estante!
    Sempre acompanhei o trabalho do Paulo pelo Blog dos Quadrinhos, e acho extremamente válido esse “descobrimento” dos quadrinhos argentinos, pois somos muito influenciados por quadrinhos americanos, e atualmente os japoneses, quem nunca leu/ ouviu falar de Batman/ Dragon Ball, já sobre El Enternauta, eu não conhecia nada antes de ler Bienvenido. Uma ótima obra sobre os quadrinhos dos nossos hermanos!

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  2. Comentado por:

    Manassés Filho

    Foi uma honra ter sediado está noite de autógrafo em minha livraria(Comic House) tanto pela importância da obra, quanto pela presença de Paulo Ramos, um dos maiores estudiosos da nona arte em nosso país.

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