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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Na crise com o PL, Bolsonaro não entendeu um ponto óbvio

O presidente que nunca compreendeu o sentido de partido no Brasil ou a lógica das coalizões regionais

Por Matheus Leitão Atualizado em 15 nov 2021, 16h50 - Publicado em 15 nov 2021, 15h10

O presidente Jair Bolsonaro não entende de muita coisa, mas é impressionante também que não compreenda a vida partidária no Brasil após três décadas de exercício de mandatos políticos.

Não existe partido, de norte a Sul, do mesmo lado limítrofe da política, pois as coalizões locais são diferentes do acordo feito no âmbito federal. Sempre foi assim.

Bolsonaro está pedindo ao PL do mensaleiro Valdemar da Costa Neto que, de Norte a Sul, se alinhe a ele, mas os interesses em cada lugar são diferentes, e isso acontece em qualquer partido.

O governador do Maranhão, Flávio Dino, sendo do PCdoB, fez uma coalizão ampla, mais de 12 partidos, e foi assim que ele ganhou as eleições no Estado – até com legendas de direita.

O governador do Ceará, Camilo Santana, é do PT e apoia Ciro Gomes, que vive criticando Lula. Mas a família Gomes é a maior força no Ceará. Foi o que ajudou ele a ser governador do Estado.

O governador do Pará, Helder Barbalho, formou uma coalizão com o MDB, PSL, PTB, PROS, e o próprio PT acabou apoiando ele no Estado. Helder não se dá com Bolsonaro, mas fez alianças com partidos que o apoiam.

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O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, é tucano, mas aliado ao PT no Estado e tem um vice do PTB. Ele teve apoio de partidos que apoiaram Bolsonaro, mas será adversário do presidente na campanha de 2022, mesmo se perder as prévias.

Essas diferenças regionais são históricas no Brasil, que sempre viveu assimetria entre as coalizões locais e federais. A verticalização partidária, como Bolsonaro quer, já foi tentada no Brasil, quase à fórceps pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e não deu certo.

Até na ditadura, tão admirada pelo atual presidente, tentaram forçar o sistema a ser bipartidário, e tiveram que ceder. Daí, vieram as sublegendas: Arena 1, Arena 2, Arena 3, que se estranhavam no Nordeste, por exemplo, porque um partido não comportava todos os chefes políticos regionais.

Nunca se conseguiu construir essa lealdade absoluta em relação à coalizão do presidente nos Estados porque a composição dos partidos políticos nas regiões é diferente, por força, inclusive, das idiossincrasias do eleitorado.

O mix de partidos de um governador não combina com o do presidente. Além de ser uma contradição se juntar com o PL de Valdemar da Costa Neto, preso no mensalão do PT, Bolsonaro faz exigências impossíveis ao PL.

Bolsonaro sempre foi de nicho. Assim foi eleito sete vezes para deputado federal. O presidente mostra mais uma vez que não entendeu lhufas de como é que se organizam os partidos no país, ou não entendeu o básico: que eles se organizam de maneira diferente de estado por estado, com uma lógica singular.

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