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E o coração ficou em segundo plano

Total de mortes por doenças cardiovasculares ocorridas em casa no primeiro semestre de 2021 cresceu 12% em relação a igual período de 2020

Por João Fernando Monteiro Ferreira 25 out 2021, 16h21

Além de todos os prejuízos diretos que o novo coronavírus representou e representa para a saúde e para a sociedade, ele também foi capaz de promover um efeito paralisante em uma grande parcela da população: cerca de 14 milhões de pessoas no Brasil negligenciaram tratamentos para doença cardiovascular, se negaram a buscar diagnóstico ou deixaram de lado ações preventivas e curativas.

Um levantamento da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo – SOCESP – com base em dados de seis instituições paulistas – Incor, Unifesp, Santa Casa de São Paulo e Hospital Israelita Albert Einstein, na Capital, PUCCamp, em Campinas, e Famaerp, em São José do Rio Preto – comprovou queda nas internações da ordem de 16,2% no ano passado na comparação com o mesmo intervalo de 2019. No caso das internações cardiovasculares e por infarto, a baixa foi, respectivamente, de 13,8% e 15,9%. A pesquisa também mostrou que as consultas ambulatoriais em cardiologia diminuíram 33,8% no período. Outro dado apurado é que o número de procedimentos nos ambulatórios para diagnóstico de doença cardiovascular caiu 23,4% enquanto os tratamentos terapêuticos hemodinâmicos – como colocação de stent ou realização de cateterismo – 28,7% e as cirurgias cardiovasculares decresceram 16,8%.

Seriam ótimas notícias se essas quedas configurassem um controle das doenças cardiovasculares. Mas, ao contrário, ano a ano as investigações e achados tendem a crescer por conta do envelhecimento da população, ampliação do acesso à saúde e pelo fato de as pessoas estarem mais cientes da necessidade de cuidados cardíacos. Em 2018, por exemplo, foram 477.412 procedimentos ambulatoriais de vistoria clínica de doença cardiovascular no Estado de São Paulo. Já em 2019 foram 506.552, uma alta de 6,1%. Porém, no ano passado, a Covid-19 fez este número despencar para 387.887 procedimentos.

Dados divulgados pela Arpen-Brasil (Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Brasil) mostram que houve incremento de quase 7% nos óbitos por doenças cardiovasculares nos primeiros seis meses de 2021 em relação a igual período de 2020. As mortes por infarto, que haviam reduzido em 3,82% de janeiro a junho de 2020, no comparativo com o ano anterior, voltaram a subir este ano, registrando aumento de 3,14% nos primeiros seis meses de 2021. Os óbitos por doenças cardiovasculares inespecíficas – morte súbita, parada cardiorrespiratória, choque cardiogênico, entre outras – também aumentaram quase 19% este ano quando comparadas aos meses de janeiro a junho do ano passado: foram mais de 52 mil no primeiro semestre contra 44 mil em 2020. Um dado que retrata claramente o receio de contágio é a maior incidência de mortes por doenças do coração ocorridas em casa: alta de 11,74%.

Diante da urgência deste cenário, a SOCESP promove uma campanha para que a população retome ou dê andamento aos tratamentos do coração. As sete recomendações da American Heart Association para manutenção de um coração saudável devem ser seguidas à risca: controle da pressão arterial, do colesterol, do nível de açúcar no sangue (para evitar diabetes), prática regular de exercícios físicos (pelo menos 150 minutos de atividade aeróbica de intensidade moderada ou 75 minutos de exercícios intensos por semana), comer melhor (ingestão de verduras, legumes, frutas, grãos integrais, carnes magras etc., limitando o consumo de sal, doces e demais alimentos ricos em gordura poli-insaturadas, manutenção de um peso saudável e, caso seja fumante, parar de fumar. Porque os indícios são claros: caso não ocorra uma mudança de hábitos, teremos uma explosão de infartos e AVCs, nos próximos meses. O estresse é também um fator de risco e todos nós fomos fortemente impactados por ele durante a pandemia.

Os cuidados para evitar o contágio do novo coronavírus não podem e nem devem suplantar demais ações em prol da saúde integral do indivíduo. Negligenciar tratamentos e iniciativas voltadas à prevenção é um convite formal para o agravamento e instalação de outras doenças tão ou mais danosas que a Covid-19.

Letra de Médico - João Fernando Monteiro Ferreira
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