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Ciência e espiritualidade: buscando o elo para entender a saúde e a doença

Os dois caminhos são muito mais conciliáveis do que se possa imaginar

Por Álvaro Avezum Atualizado em 6 abr 2021, 19h10 - Publicado em 5 abr 2021, 10h37

Prezado leitor e estimada leitora, se vocês associaram Espiritualidade com Religião e hesitaram em continuar a leitura supondo que Ciência e Espiritualidade não são conciliáveis, por favor, continue lendo, pois, este artigo destina-se a você, inclusive. Como cardiologista, pesquisador e introdutor da Medicina Baseada em Evidência no Brasil há 25 anos (prática médica baseada em confirmação científica), gostaria de trazer a seguinte questão: Enfermidade Moral pode estar associada com nosso adoecimento cardiovascular?

De acordo com o Departamento de Espiritualidade e Medicina Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC/DEMCA), Espiritualidade representa o conjunto de valores morais, mentais e emocionais que norteiam pensamentos, comportamentos e atitudes nas circunstâncias da vida de relacionamento (intrapessoal e interpessoal), motivado ou não pela vontade e passível de observação e de mensuração. Portanto, característica intrínseca da humanidade onde buscamos propósito e significado em nossas vidas, independente de religião, etnia, região geográfica, profissão, escolaridade, renda familiar ou quaisquer convicções, fé, crenças ou filosofias.

É possível avaliar o que parece ser subjetivo? Sim, por meio de questionários e escalas, muitas das quais validadas em nosso país, podemos avaliar espiritualidade, religiosidade, gratidão, otimismo, empatia, disposição ao perdão, compaixão, estresse, depressão, ansiedade, bem estar espiritual, etc. Portanto, a Ciência avalia Espiritualidade e a literatura científica é abundante neste tópico. Discordar sem rever a literatura significa desatualização científica.

O que temos como revisão breve e sucinta da literatura científica? Estresse e depressão aumentam o risco de infarto agudo do miocárdio (IAM) e de acidente vascular cerebral, o Brasil é o país onde o estresse emocional apresenta maior impacto associado com IAM, espiritualidade e religiosidade associam-se com menores taxas de mortalidade (por todas as causas, cardiovascular e por câncer), raiva associa-se com maiores chances de ocorrência de diabetes e de insuficiência cardíaca, propósito de vida aumenta expectativa de vida, compaixão previne ocorrência de hipertensão arterial, disposição ao perdão reduz isquemia miocárdica em portadores de doença arterial coronária e, possivelmente, risco associado com IAM, satisfação com a vida reduz taxas de mortalidade, solidão aumenta taxas de mortalidade.

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Podemos definir Enfermidade Moral? Se definimos podemos diagnosticar? Se diagnosticamos podemos e devemos tratar? Doença é anormalidade da estrutura e função dos órgãos e sistemas corporais (ex. diabetes, insuficiência cardíaca, IAM). Apresenta evidência biológica e química. Não lida com fatores pessoais, culturais, sociais e espirituais da saúde debilitada. Enfermidade é resposta subjetiva do paciente ao não se sentir bem. Doença é algo que um órgão tem; enfermidade é algo que o ser humano tem.

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Enfermidade Moral pode ser conceituada como resposta subjetiva, afetando o comportamento ou relacionamento com os outros, envolvendo valores, sentimentos, ou atitudes associadas com prejuízo para si e/ou para o outro, incluindo a sociedade. Por tratar-se de enfermidade, não há confirmação laboratorial ou clínica, entretanto, pode ser avaliada objetivamente por meio de questionários ou escalas. Há correlação com alterações bioquímicas, hormonais ou eventos clínicos dependendo da intensidade da condição clínica ou do período de observação.

Exemplo de sentimentos negativos para enfrentamento das situações adversas ou desafiadoras de nossas vidas: raiva, ódio, pessimismo, vaidade, ingratidão, ressentimento, ruminação, desejo de vingança, egoísmo, não perdão, orgulho, intolerância. Exemplos de sentimentos positivos para este enfrentamento: perdão, honestidade, autodisciplina, altruísmo, empatia, compaixão, humildade, compreensão, gratidão, otimismo, solidariedade, fraternidade, empatia, tolerância, abnegação, paciência/calma.

É possível intervenção sobre valores morais? É possível aprender a perdoar ou a ser grato por meio da Ciência? Vamos analisar os desafios desta intervenção. De maneira clara, há plausibilidade biológica, estudos observacionais sugerem benefício potencial, estudos de intervenção preliminares sugerem eficácia, é factível, podemos assegurar validade tanto interna como externa. Precisamos ainda definir se a intervenção será sobre o indivíduo, sobre grupo de indivíduos ou sobre a sociedade, como também quem será responsável pela intervenção (médico, psicólogo, outro profissional de saúde, multiprofissional). A partir das evidências científicas disponíveis as sociedades médicas produzem as diretrizes para guiar as condutas médicas baseadas em evidências.

A SBC em sua Diretriz de Prevenção Cardiovascular (2019), de maneira única e original no mundo, publicou as diretrizes em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular. Selecionamos duas recomendações, dentro de 13 disponíveis: Rastreamento breve de espiritualidade e religiosidade (classe de recomendação I e nível de evidência B – deve ser realizado) e prescrever orações, práticas religiosas ou denominação religiosa específica (classe de recomendação III e nível de evidência C – não deve ser realizado).

Finalmente, quais devem ser nossos próximas passos, em Cardiologia, em Ciência e em Espiritualidade? Primeiramente, a questão envolvendo quando começamos a adoecer reveste-se de importância científica e relevância clínica global. Como questão científica poderíamos postular para que possa ser confirmado sólida, robusta e confiavelmente: deflagrado o processo de desajuste emocional/mental/espiritual criam-se áreas de predisposição mórbida; toda enfermidade nasce das profundezas da consciência/mente/espírito a partir do mente/consciência, atingindo o corpo físico (alteração de funções e manifestação da doença) e nesta hipótese, antecedendo as lesões anatomopatológicas (físicas), estão as disfunções mais ou menos intensas que têm origem na mente enferma, antecipando a manifestação mórbida física. Portanto, estamos propondo por meio da ciência médica que tem guiado seguramente a prática clínica, avaliações científicas tendo por base a solidariedade atitudinal, a qual pode operar a regeneração moral da humanidade.

Espiritualidade baseada em Ciência como alavanca promotora saúde integral para a humanidade. A ausência da evidência não significa evidência da ausência (Carl Edward Sagan – físico e astrônomo norte americano). Até o próximo compartilhamento de conhecimento, o maior inimigo da doença. Saúde e Paz.

Letra de médico Álvaro Avezum
./Divulgação
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