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Janela para Tóquio Por Piti Koshimura Um olhar para o cotidiano da cidade olímpica

Por um santuário a Zaha Hadid

Aclamada arquiteta anglo-iraquiana vencera o concurso do novo estádio de Tóquio, mas teve seu projeto descartado pelo governo pouco antes de morrer

Por Piti Koshimura Atualizado em 22 jul 2021, 22h38 - Publicado em 22 jul 2021, 08h44

São tantas as polêmicas envolvendo a realização desta edição dos Jogos Olímpicos de Tóquio que talvez uma delas tenha caído no esquecimento: Zaha Hadid, arquiteta anglo-iraquiana aclamada mundialmente por seus trabalhos monumentais, teve seu projeto descartado pelo governo japonês depois de ter vencido o concurso do novo estádio de Tóquio.

Preocupado com os gastos muito maiores do que o previsto e sofrendo uma enorme pressão da população japonesa, avessa aos investimentos exorbitantes com o evento, o governo chegou a pedir à arquiteta uma versão menos custosa do projeto em 2014, dois anos depois do anúncio do resultado do concurso. 

Sobre o aumento orçamentário, Zaha Hadid Architects, o escritório da arquiteta, culpou o governo por levantar uma estimativa inicial de custos num momento embrionário do projeto, quando ainda era impossível precisar valores reais de execução. Somado a isso, o aquecimento do mercado de construção civil nos anos seguintes provocou reajustes inflacionários à cotação final.

  • PARIS, FRANCE - JUNE 26: Architect Tadao Ando attends the Press Conference to announce the transformation of the former Paris Stock Exchange into the New Museum of the Pinault Foundation on June 26, 2017 in Paris, France. (Photo by Luc Castel/Getty Images)
    O arquiteto Tadao Ando encabeçou o júri do concurso que escolheu o projeto de Zaha Hadid – Luc Castel/Getty Images

    Reformulado e simplificado, o projeto seguiu recebendo duras críticas. Somando-se à repercussão popular negativa, um grupo de arquitetos japoneses renomados, liderados por Fumihiko Maki, manifestou sua insatisfação com o projeto vencedor por ser gigantesco demais e por não dialogar com o entorno da área. Um elefante branco. 

    Ou uma tartaruga, segundo Arata Isozaki. 

    Versão simplificada do projeto da Zaha -
    Versão simplificada do projeto da Zaha – //Divulgação

    Junto com Maki no rol de ganhadores japoneses do Pritzker, o maior reconhecimento da arquitetura mundial, Isozaki comparou o novo design a uma forma sem graça e vagarosa, como uma “tartaruga esperando o Japão afundar”. Se a obra fosse adiante, Isozaki temia que Tóquio tivesse que lidar mais adiante com o que é chamado de “lixo de grande formato”, categoria de descartes grandes demais para serem recolhidos pelo caminhão de lixo, como móveis ou colchões. Nesse caso, é preciso pagar uma taxa à prefeitura para que o recolhimento e descarte sejam feitos apropriadamente.

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    Encurralado, o então primeiro-ministro Shinzo Abe decidiu abrir um novo concurso e começar tudo do zero. Zaha Hadid se recusou a entrar novamente na licitação, da qual participaram apenas dois arquitetos, ambos japoneses: Toyo Ito e Kengo Kuma. Mais compacto e 40% mais enxuto no orçamento do que a escolha inicial, o desenho de Kuma acabou sendo anunciado como vencedor, em dezembro de 2015. Concluído no final de 2019, o projeto de Kuma vai por um estilo bem diferente — sobre o qual falaremos mais amanhã.

    O estádio olímpico para esta edição dos Jogos de Tóquio é um projeto de Kengo Kuma
    O estádio olímpico para esta edição dos Jogos de Tóquio é um projeto de Kengo Kuma – Carlos Kato/VEJA

    Em meio a tantas críticas, o desenho da arquiteta, aprovado por ninguém menos que Tadao Ando, encontra defensores. Nascido em Tóquio, Hayato Fujii, representante do escritório Kengo Kuma and Associates no Brasil, lamenta a decisão do governo de abandonar o projeto inicial. Diz que sua cidade natal perdeu a oportunidade de ter uma obra com a assinatura de Zaha Hadid, a primeira mulher a ser laureada com o Prêmio Pritzker. Uma oportunidade que certamente não se repetirá, já que, apenas três meses depois da divulgação do projeto de Kuma, Zaha Hadid morreu de um ataque cardíaco fulminante, aos 65 anos.

    Pouco antes do triste e inesperado acontecimento, a arquiteta, que ainda não havia sido totalmente remunerada pelo projeto, chegou a manifestar publicamente seu descontentamento com a condução do processo pelo governo e se recusou a assinar um aditivo ao contrato que implicaria na cessão dos direitos autorais de sua obra ao órgão responsável pela construção do estádio. Sob ameaças de processo, o governo japonês acabou entrando num acordo milionário com o escritório. 

    Pandemia, adiamento, protestos, declarações infelizes, demissões, arenas vazias. Por aqui, dizem que desgraças sucessivas podem ter origem em uma alma que se recusa a descansar. Como diz meu amigo Roberto Maxwell, residente no Japão há quase 16 anos, nesta altura do campeonato, talvez a única coisa que possamos fazer para tirar o mau agouro que cerca os Jogos de Tóquio é construir um santuário para apaziguar o espírito de Zaha Hadid.

    Agradecimento: Gabriel Kogan

    Piti Koshimura mora em Tóquio, é autora do blog e podcast Peach no Japão e curadora da Momonoki, plataforma de cursos sobre o universo japonês. Amante de arquitetura e exploradora de becos escondidos, encontra suas inspirações nos elementos mundanos. (@peachnojapao | @momonoki_jp)

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