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“Years and Years”: Emma Thompson no centro da nova (des)ordem mundial

Desde já candidata a melhor do ano, a vertiginosa série da HBO avança em um futuro que tem a cara cada vez mais alarmante deste presente

Os Lyons – e o espectador – notam pela primeira vez a existência de Vivienne Rook, empresária e subcelebridade, porque ela detona em um programa ao vivo ao afirmar que está pouco se ******* para israelenses e palestinos, e que tem certeza de que a maioria dos ingleses pensa como ela e só não diz o que pensa porque não pega bem. Viv viraliza no ato, funda um partido chamado Four Star (que seria mais bem traduzido como “quatro asteriscos”: quase todos os palavrões da língua inglesa têm quatro letras) e assim começa uma carreira política que até pouco tempo atrás pareceria bizarra não só na ficção como também na realidade. Não mais, claro – e Russell T. Davies, o criador de Years and Years, prevê que esta época, a dos candidatos crassos e das doideiras populistas e nacionalistas, vai durar bastante ainda. Ou ao menos pelos quinze anos que sua série abarca, partindo de 2019, quando os Lyons pela primeira vez se engancham em uma chamada coletiva para comentar suas reações variadas à aparição de Viv – que Emma Thompson interpreta com uma vitalidade, uma ferocidade e um poder de abrasão tão fenomenais que é preciso repetir o óbvio: vá ser atriz assim lá longe.

Years and Years

 (HBO/Divulgação)

Muitas outras chamadas coletivas serão feitas no decorrer dos seis episódios, porque o tumulto da vida pessoal dos Lyons e o do mundo não param de se avolumar. Russell T. Davies, que foi o homem por trás de Doctor Who na gestão de David Tennant, faz coisas extraordinárias com o tempo aqui. Às vezes ele avança vários anos de uma vez só, misturando em um minuto de montagem ataques nucleares, quebradeira de bancos, fechamento de fronteiras, guinadas de direita e de esquerda – e aí se detém durante um bom tempo em algum acontecimento e no que ele acarreta para os Lyons. E então engatinha para o próximo evento, e em seguida dispara de novo. É um ritmo imprevisível e vertiginoso, que tem o efeito de provocar a sensação de um presente eterno, e mais assustador a cada minuto. Assustador e também engraçado, porque Davies tem um senso de humor delicioso e vive deixando cair “cacos” sobre o absurdo dessa realidade que vai se desenhando (o meu favorito: a certa altura, para entrar no bairro exclusivíssimo de Kensington, em Londres, passa a ser necessário comprovar renda. Não falta muito para chegar lá). 

Years and Years

 (HBO/Divulgação)

Os Lyons são o centro e o coração da história – durante os primeiros dos seis episódios, Viv é quase que só um pano de fundo –, e são uma família tão sortida quanto qualquer outra de classe média: o irmão mais velho, Stephen (Rory Kinnear), é consultor financeiro e a mulher dele, Celeste (T’nia Miller) é contadora. Edith (Jessica Hynes) é uma ativista que vive batalhando causas mundo afora mas tem de voltar para casa porque foi contaminada ao se aproximar demais da explosão de uma bomba atômica numa ilha no Mar da China (na profecia da série, Trump e Xi Jinping continuam nos seus postos, e às turras um com o outro, a perder de vista). Daniel (Russell Tovey), o irmão mais querido de todos, trabalha na secretaria de habitação de Manchester e está às voltas com a crise dos refugiados ucranianos que vêm chegando à Inglaterra (a Rússia anexou de vez a Ucrânia, e quem não está de acordo tem de fugir correndo). Daniel se envolve mais do que pretendia: apaixona-se por Viktor (Maxim Baldry), um dos refugiados, larga o marido para ficar com ele e assim, sem querer, inicia uma via-crúcis para tentar resgatar Viktor das barreiras migratórias cada vez mais draconianas que vão subindo por toda a Europa e empurrando o rapaz para lá e para cá. A caçula, Rosie (Ruth Madeley), é mãe solteira de dois meninos e trabalha como gerente da cantina de uma escola; é a mais pândega dos quatro, e é também quem mais se encanta com o estilo “falo na lata” de Viv.

Years and Years

 (HBO/Divulgação)

Como a mãe dos irmãos Lyons morreu e o pai há muito tempo saiu da vida deles, a avó Muriel (Anne Reid) virou o eixo em torno do qual eles se reúnem, e é na casa grande e velha dela que eles discutem suas diferenças e as aplainam (ou não), e em que ventilam suas mágoas. Que não são poucas. O consultor financeiro Stephen, que ironia, perdeu tudo – tudinho – literalmente da noite para o dia numa crise bancária de deixar a de 2008 no chinelo; teve de virar mensageiro de bicicleta e arrumar mais quatro empregos. Celeste, que sempre odiou Muriel, agora tem de morar na casa dela de favor. Bethany (Lydia West), sua filha mais velha, quer ser trans – não transgênero, mas trans-humana; o sonho dela é ser digitalizada e mudar-se para a nuvem. Edith cansou de tentar construir um mundo melhor; agora quer tocar fogo neste. O bairro em que Rosie mora foi designado “zona de crime” e cercado; na prática, virou um campo de concentração. E Daniel e Viktor continuam ricocheteando pela Europa, em tentativas cada vez mais desesperadas de encontrar um lugar em que o ucraniano não seja preso, deportado ou pior. Vivienne, enquanto isso, sobe e sobe, na mesma proporção em que seu discurso se torna mais oco, mais polarizado e mais distante de qualquer realidade prática. Falar é de graça, e Vivienne fala sem parar que – parafraseando – vai tornar a Grã-Bretanha grande de novo. Como vai fazê-lo – isso são outros quinhentos que, curiosamente, o eleitorado não cobra dela.

Years and Years

 (HBO/Divulgação)

A progressão para esse estado de coisas (e dele para outros estados ainda mais drásticos) é fantasticamente bem escrita e invariavelmente plausível. Na verdade, o espectador vai identificando essa escalada como praticamente inevitável: embora Years and Years seja classificada como “ficção científica”, acho a categorização ruim. A rigor, a série não especula, e sim faz germinar sementes que já estão plantadas no presente. E, se você acha que nada mais pode lhe causar espanto em meio à virulência e à degradação atuais, prepare-se para o grau em que ainda é possível horrorizar-se. Ou, às vezes, rolar de rir: da mesma forma que maneja a passagem do tempo de formas imprevisíveis, Russell T. Davies atabalhoa as emoções despertadas pela trajetória dos Lyons e do mundo, ziguezagueando sem aviso entre o cômico, o trágico, o assustador e o enregelante. A insegurança dos personagens é também a insegurança do espectador, que não tem como se preparar para o que vai sentir. Nem seria preciso dizer, mas não custa: o elenco é fenomenal, e eu teria dificuldade em escolher as atuações mais superlativas. Pressionada a cometer essa injustiça, além de Emma Thompson eu destacaria Russell Tovey, Anne Reid e Rory Kinnear. O que se pode afirmar sem nenhum exagero é que Years and Years é um colosso, uma vertigem e um vendaval de originalidade.

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