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“Seven Seconds”: para ficar exausto (no bom sentido)

Densa e tensa, série da Netflix sobre policial que atropela um garoto negro e foge é para ser vista um episódio por vez

Atropelar e fugir já seria vil. Mas atropelar, parar, olhar, chamar os parceiros, esperá-los chegar, deliberar e então fugir sem prestar socorro nem sequer fazer um telefonema anônimo para a emergência – que nome se poderia dar a isso? Na carregada Seven Seconds, que estreou na Netflix há pouco, várias possibilidades vão surgindo: indiferença, medo, preconceito, tensão, ganância, corrupção – e também arrependimento, o sentimento que domina o atropelador, o policial Pete Jablonsky (Beau Knapp), mas para o qual ele não consegue encontrar resolução. Jablonsky, um policial escrupulosamente honesto, fez sua vítima por absoluta casualidade. Mas, recém-transferido de Nova York para a divisão de Narcóticos da vizinha Jersey City, acha por bem consultar o chefe da sua força-tarefa, o sargento Mike DiAngelo (David Lyons), antes de notificar o acidente. E, apesar dos protestos de Jablonski e das objeções dos parceiros de DiAngelo, o sargento decide abandonar o adolescente negro de 15 anos numa vala na neve que recobre o Liberty Park (que tem esse nome pela vista da Estátua da Liberdade): ninguém viu nada, ele está morto mesmo, se estava naquele lugar é porque devia ser membro de gangue, e o clima não anda bom para policiais brancos que matam cidadãos negros, diz DiAngelo. Exceto pelo fato de que Brenton Butler não está morto, e vai passar as doze horas seguintes agonizando sob o frio intenso, com o crânio tão estilhaçado que, não fosse o capuz apertado, pedaços de ossos se teriam espalhado por ali junto com o sangue. Brenton, além disso, não é criança de rua, como julgam os policiais. Tem pai e mãe trabalhadores, religiosos e, agora, sedentos de alguma justiça. “Alguma”, aí, será a palavra-chave: em dez episódios densos, que duram cerca de uma hora cada um mas deixam o espectador exausto (da melhor maneira possível), Seven Seconds mostra como podem ser infinitamente tortuosos os caminhos até ela.

Seven Seconds

 (Netflix/Divulgação)

Criada pela produtora de The Killing, a canadense Veena Sud, Seven Seconds pode até ser matéria-prima para maratona, porque como trama policial é impecável, repleta de desdobramentos muito bem urdidos, que deixam o espectador ansioso pela reviravolta ou a revelação seguintes. Mas não sei se essa é a melhor maneira de apreciá-la: preferi ver um episódio por vez e deixar que ele fosse “assentando” antes de assistir ao próximo. Achei que colaborava com a atmosfera de exasperação que domina a série – tanto a exasperação dos culpados (entre os quais alguns sentem a culpa, outros não) quanto a dos pais vividos pelos estrondosos Russell Hornsby e Regina King, a do detetive de Homicídios Fish Rinaldi (que Mike Mosley, de Sirens e Ozark, interpreta como uma figura lindamente quixotesca) e a da promotora-assistente KJ Harper (Clare-Hope Ashitey), uma moça negra, de família rica, que faz mal seu trabalho, bebe demais, é dada a desistir à menor dificuldade e a cada esquina tira um tempo para morrer de pena de si mesma – mas que Fish, por lealdade e por falta de aliados mais capazes, não cansa de empurrar à frente. Seven Seconds tem essa atribulação da vida real, esta em que nada funciona direito na polícia e no Judiciário, dentro de casa e nas ruas.

Seven Seconds

 (Netflix/Divulgação)

A série é um belíssimo flagrante da vida urbana também, com suas conexões sociais, raciais e econômicas confusas e intrincadas – o desejo de ascensão, as disputas étnicas, os conluios entre lei e crime, o abandono de zonas geográficas inteiras à marginalidade. Mas o que torna esse flagrante vívido é a bagagem com que cada personagem encara as facetas desse cotidiano. E, aí, a nota dominante é o desamparo – em particular, aquele desamparo que advém da fome por figuras paternas, e as distorções que essa fome causa: os segredos inúteis e não raro destruidores, os descaminhos. Nas comunidades negras americanas, o impacto da escassez de figuras paternas é um fenômeno que vem sendo muito discutido (é a tônica, por exemplo, de Moonlight), mas Seven Seconds o detecta em todas as cores e faixas de renda e se sai com uma personagem que é um dos pontos mais altos da série: Nadine, uma menina também ela de 15 anos, branca, rica, aluna de escola super exclusiva e uma dependente de heroína que a família nem se interessa mais em tentar controlar, mas que Fish, que não resiste a um cão abandonado, meio que adota (assim como alguns personagens imploram por figuras paternas, outros precisam desesperadamente de quem lhes faça as vezes de filhos). Nadine tem um papel crucial na trama – inclusive por causa do trabalho sensacional de Nadia Alexander, que já era a melhor coisa de longe da série The Sinner (como a irmã doente de Jessica Biel) e confirma, aqui, que é uma atriz na qual é preciso prestar toda atenção.

Seven Seconds

 (Netflix/Divulgação)

 

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  1. Ainda não vi, mas a crítica aqui lembra um pouco o filme “Segredos de um Crime” (Isabela Boscov em 20 jun 2017, 17h04). De qualquer forma, vou assistir.

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