Clique e assine com até 92% de desconto
Isabela Boscov Por Coluna Está sendo lançado, saiu faz tempo? É clássico, é curiosidade? Tanto faz: se passa em alguma tela, está valendo comentar. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Adam Sandler é maior até do que ele mesmo imagina em “Joias Brutas”

Depois de virar Robert Pattinson do avesso em “Bom Comportamento”, os irmão Safdie agora levam o comediante ao limite em filme da Netflix

Por Isabela Boscov 7 fev 2020, 17h18

Howard Ratner é joalheiro da Rua 42, em Nova York, não resiste a um trambique e é apostador compulsivo. Está até o pescoço em dívidas com um pessoal barra-pesada – incluindo-se seu cunhado, que conhece muito bem seus rolos –, e está se fiando numa daquelas miragens que costumam atrair gente como ele: uma opala enorme e rara garimpada na Etiópia, que ele acaba de receber em contrabando e que pretende pôr em leilão, calculando que ela vá lhe render uma fortuna. O problema – um dos muitos problemas, na verdade – é fazer o relógio andar rápido para receber o dinheiro, e devagar para ele pagar o que deve. Como essa mágica não existe, e como cada personagem que entra na história só aumenta o enrosco de Howard (não que ele precise de ajuda externa para se enroscar; o sujeito é um trem descarrilado), está claro que nada disso vai acabar bem. O que destaca Joias Brutas, porém, não é a quase certeza de que Howard vai bater no fundo do precipício; é a maneira convulsiva como os diretores, os irmãos Benny e Josh Safdie, filmam cada etapa da sua queda. E o que é verdadeiramente extraordinário é o desempenho que eles arrancam de Adam Sandler – uma atuação instintiva, desesperada e que deve ter sido emocionalmente exaustiva, porque o estilo dos Safdie é um rolo compressor: não para nunca e se avoluma e se agrava em taxas alarmantes enquanto eles literalmente perseguem o personagem com a câmera e às vezes abafam a voz dele com a trilha desencontrada, cheia de sintetizadores retrô. Mais do que um filme, é um ataque.

Joias Brutas
Netflix/Divulgação

Joias Brutas é o quarto longa dos Safdie, mas eles chamaram muito a atenção dois anos atrás por causa de Bom Comportamento, em que submeteram Robert Pattinson a esse mesmo método de trituração. Pattinson já vinha buscando muito aplicadamente se expandir e se flexionar como ator, mas os Safdie fizeram mais por ele do que qualquer outro diretor: eles de fato o viraram do avesso, e o resultado está aí – um baita ator, que na fase de Crepúsculo ninguém supunha existir ali dentro. Quanto a Adam Sandler, esta não é a primeira vez que ele dá mostras de grande talento. Paul Thomas Anderson fez maravilhas com ele em 2002, em Embriagado de Amor, e ele se saiu bem também em Espanglês, em 2004, com uma performance muito doce e até delicada. Mas fazia muito, muito tempo que Sandler estava acomodado – eu diria até refestelado – em uma veia preguiçosa de comédia, da qual ele não precisa sair porque o eleitorado dele é grande o suficiente para garantir o seu conforto. Se estava à cata de um chacoalhão, então, Sandler achou o maior de todos eles com os Safdie, que tiram do personagem e também do ator qualquer controle, metem-no numa maratona e fazem a angústia, a aflição e a raiva subirem à superfície do jeito que vierem – desordenamente e aos borbotões. Não é um desempenho técnico nem lapidado. É de fato uma pedra bruta, cheia de arestas e de imperfeições. E também de beleza.


Trailer

JOIAS BRUTAS
(Uncut Gems)
Estados Unidos, 2019
Direção: Benny e Josh Safdie
Com Adam Sandler, Eric Bogosian, Julia De Fiore, Lakeith Stanfield, Kevin Garnett (como ele mesmo), Idina Menzel, Judd Hirsch
Onde: na Netflix
Continua após a publicidade
Publicidade