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O Homem Que Não Estava Lá

Força de expressão

Billy Bob Thornton se mantém impassível, mas hipnotiza a platéia num filme dos irmãos Coen

Cada linha e cada ângulo do rosto de Billy Bob Thornton ganham um mundo de significado quando a luz bate sobre ele em O Homem que Não Estava Lá, o novo e esplêndido filme dos irmãos Joel e Ethan Coen. O título é um fato e uma ironia. Um fato porque o protagonista Ed Crane é, a rigor, a nulidade em forma de personagem. E uma ironia porque a riqueza do filme está toda concentrada em sua presença. Em 1949, numa cidadezinha da Califórnia, Ed ajuda o cunhado numa barbearia e só de tempo em tempo fala uma frase com mais do que três monossílabos enfileirados. Nem com a mulher (Frances McDormand, de Fargo) ele tem, ou jamais teve, o que conversar. Ed nem sequer se considera um barbeiro. “Eu só trabalho lá”, diz. Sabe que sua mulher está tendo um caso com o chefe, mas somente quando põe na cabeça o sonho de abrir seu próprio negócio ele toma uma atitude: chantagear o rival para levantar a bolada. Não é que Ed seja um mau-caráter. Apenas agarra o que lhe parece ser uma tábua de salvação. É evidente, contudo, que os acontecimentos desencadeados por seu bilhete de chantagem serão terríveis, muito além de qualquer coisa que Ed possa controlar.

Esse é, em suma, o tripé do film noir, aquele gênero de suspense cínico e mundano que Hollywood popularizou nos anos 40 e 50: uma mulher que age de forma traiçoeira, a promessa de uma barbada e um sujeito que se acredita capaz de uma esperteza, mas está tragicamente enganado. Os irmãos Coen têm grande intimidade com o noir, com o qual já trabalharam várias vezes. Aqui, porém, eles refreiam seu hábito de parodiar. Optam por destilar, e se superam. Para começar, O Homem que Não Estava Lá é filmado num preto-e-branco denso e contrastado como só se via nos filmes antigos  – resultado de um ano de testes, comandados pelo diretor de fotografia Roger Deakins. Quando, no meio da escuridão, a luz incide sobre um personagem, ela o faz de forma ao mesmo tempo real e metafórica. Cada nuance de um olhar ou de um gesto entra em evidência, por mínima que seja. E, no caso de Thornton, mínima é a palavra certa. Sempre impassível, tragando lentamente de um cigarro sem filtro, ele está aqui no lugar de todos os homens e mulheres da ficção – e da platéia – que alguma vez sentiram que não há lugar para eles no mundo, e que a vida ficou complicada demais para seus poderes de dedução.

É lamentável que a atuação superlativa de Thornton não tenha sido indicada ao Oscar. O ator foi vítima de sua própria competência. Com dois outros papéis importantes neste ano, em Vida Bandida e A Última Ceia, ele acabou pulverizando seus votos. O que não se explica é por que O Homem que Não Estava Lá só disputa o prêmio de fotografia, e não está também no páreo pelas estatuetas de filme, roteiro e direção – para ficar no básico

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 27/02/2002
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2002

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ
(The Man Who Wasn’t There)
Estados Unidos, 2001
Com Billy Bob Thornton, Frances McDormand, Scarlett Johansson, James Gandolfini, Michael Badalucco, Jon Polito, Richard Jenkins, Tony Shaloub

Comentários
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  1. Comentado por:

    Ernesto Ribeiro

    Ah, claro : Força de expressão. Adoro seus trocadilhos. Geniais. A força do humor está na brevidade.

    Fantástico: um ator bom demais para ser indicado ao Oscar, devido aos mecanismos de votação. O ator vítima de seu próprio talento. Ironia digna deste filme.

    Diabos.

    Odeio os Coen.

    Mas vou assistir essa exceção.

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