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O embate frustrante de Ridley Scott em ‘O Último Duelo’

Diretor recria um episódio do século XIV com produção impecável e pretensão a um #MeToo medieval. Mas o verdadeiro combate, aqui, é de canastrice

Por Isabela Boscov 15 out 2021, 06h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 13h34
  • Na exigência dedicada à produção, Ridley Scott costuma ser intransigente. Para O Último Duelo (The Last Duel, Inglaterra/Estados Unidos, 2021), já em cartaz nos cinemas, ele escolheu como locação algumas das edificações medievais mais impressionantes das regiões francesas da Borgonha e da Dordonha — esta, a fronteira entre os domínios da Inglaterra e França na época da Guerra dos 100 Anos (1337-1453), em que se passa a trama. Erguidos entre os séculos X e XII, os castelos de Beynac, Fénelon e Berzé são exemplares particularmente bem preservados da arquitetura maciça e severa do período — uma fidelidade que se completa nos figurinos de Janty Yates, que trabalhou com Scott em Gladiador, Cruzada e Robin Hood, na decoração de set de Judy Farr, veterana de Downton Abbey e A Coroa Vazia, no desenho de produção de Arthur Max, colaborador de longa data do diretor, e na fotografia primorosamente lúgubre e austera do polonês Dariusz Wolski.

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    Matt Damon, com quem Scott fez Perdido em Marte, vive Jean de Carrouges, guerreiro que, em razão dos modos bruscos e da mania de acusar qualquer menosprezo à sua pessoa (e, talvez, por causa do péssimo penteado), nunca encontra favor com seu senhor, o libertino conde d’Alençon (Ben Affleck). Nesse quesito, quem se sai bem é Jacques Le Gris (Adam Driver), irmão de armas de Carrouges. Corroída aos poucos, a amizade vira ódio quando Le Gris afana uma propriedade que iria para Carrouges no casamento com Marguerite de Thibouville (Jodie Comer) — e, então, com a acusação de Marguerite de que Le Gris a estuprou. Le Gris nega, Marguerite insiste, e Carrouges pede que a questão seja decidida em duelo. Não daqueles encontros ao amanhecer entre cavalheiros, mas uma justa com cavalos, lanças e machados.

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    À maneira de Akira Kurosawa em Rashomon, Scott encena a versão de cada um dos três envolvidos (Affleck, Damon e Nicole Holofcener dividiram o roteiro entre si). Ao contrário de Kurosawa, porém, resulta repetitivo e converte em óbvio o que deveria ser subjetivo. Jodie Comer se safa, mas Damon e Driver se enfrentam mesmo é na canastrice (secundados, naturalmente, por Affleck). Rígido, desajeitado e pomposo, este Duelo range, na tela, mais que armadura enferrujada.

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    Publicado em VEJA de 20 de outubro de 2021, edição nº 2760

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