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O Diabo de Cada Dia, com Pattinson, fala de violência e religião nos EUA

Os temas confluem e fermentam no rincão rural que o diretor Antonio Campos e um elenco excelente retratam no filme da Netflix

Por Isabela Boscov - Atualizado em 11 set 2020, 17h35 - Publicado em 11 set 2020, 06h00

Durante todos os 138 minutos de O Diabo de Cada Dia (The Devil All the Time, Estados Unidos, 2020), que estreia na quarta-feira 16 na Netflix, um narrador de voz expressiva mas serena, quase hipnótica na sua regularidade, apresenta os personagens e ora oferece alguma informação essencial sobre eles, ora comenta o destino que os aguarda. Trata-se da voz do autor em cujo romance o longa se baseia, Donald Ray Pollock, que assim confere seu aval ao trabalho do diretor Antonio Campos e imprime ao filme uma qualidade literária muito apropriada: não são só as circunstâncias que fazem com que se cruzem os caminhos de um punhado de personagens espalhados pela divisa dos estados de Virgínia Ocidental e Ohio entre as décadas de 40 e 60 — às vezes, só o narrador é quem conhece a profundidade exata com que as histórias deles se relacionam, e é o olhar dele que as interpreta como facetas de um mesmo todo. Esse olhar, íntimo da paisagem e dos ritmos da vida no Meio Oeste americano mas com um quê de afastado ou mesmo clínico, é a característica mais marcante de O Diabo de Cada Dia, e Campos a preserva com zelo à medida que as tramas se emaranham e se desnovelam.

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O ponto de partida é o retorno de Willard (Bill Skarsgard, o palhaço de It, de novo excelente) ao seu canto do mundo depois de uma passagem traumática pelo front do Pacífico, na II Guerra Mundial. No lamaçal tropical da Ilha de Guam, Willard topou com uma cena que catalisou seu terror da humanidade e, sem que ele percebesse, instilou nele um fervor místico peculiar. Isolado com a mulher (Hayley Bennett) e o filho pequeno em um rincão rural onde todos o consideram um corpo estranho, Willard luta com seus demônios, a princípio silenciosamente e, depois, quando a vida lhe dá uma rasteira, com estrondo. Sem saber, ele determinou o destino da moça (Mia Wasikowska) com quem não quis se casar ao voltar da guerra, e que assim caiu nos braços de um pregador apocalíptico (Harry Melling, impressionante). Deliberadamente, entretanto, Willard forjou no filho um desejo de corrigir tudo que é errado e injusto, o qual vai se manifestar com força quando, já rapaz e interpretado então por Tom Holland, ele vê sua irmã de criação (Eliza Scanlen) ser atraída pelas atenções de um pastor melífluo e insidioso (Robert Pattinson).

A FACE OCULTA - Pattinson: por trás da fachada religiosa, a degradação – Cr. Glen Wilson/Netflix

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Todos esses personagens, e outros mais — um casal de assassinos seriais (Jason Clarke e Riley Keough), um xerife corrupto (Sebastian Stan), o dono de um posto de gasolina, os frequentadores de um bar —, resvalam uns nos outros vez após vez no decorrer dos anos, em uma proximidade natural em lugarejos pequenos, onde todos se conhecem ou são aparentados, mas que é acentuada pelas duas correntes que correm muito próximo da superfície nesse ambiente — a religião e a violência. É um universo com o qual Antonio Campos, nascido e criado em Nova York (ele é filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes), não tem familiaridade natural, mas que desperta sua curiosidade e do qual várias vezes já escolheu se aproximar, como produtor de filmes como Martha Marcy May Marlene, Os Olhos de Minha Mãe e Katie Says Goodbye ou ainda da série The Sinner, cuja primeira temporada ele em boa parte dirigiu. Mas aqui, contando com um elenco excepcional e com a fotografia do inglês Lol Crawley, um especialista nesse tipo de material, Campos atinge uma coesão notável: filma inspirado pela beleza silvestre das locações no interior americano, mas também com a indiscrição do forasteiro, tão surpreso — embora mais distante — quanto os personagens pelas irrupções de selvageria e amoralidade que os arrancam de qualquer coisa que se assemelhe a um caminho na vida.

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Publicado em VEJA de 16 de setembro de 2020, edição nº 2704

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