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“Lady Bird”: procurei e procurei, mas não encontrei

São um mistério as razões pelas quais o filme de Greta Gerwig ganhou cinco indicações ao Oscar

Garota no final do ensino médio (Saoirse Ronan) não aguenta mais o tédio do colégio católico e da sua cidade sem graça – Sacramento, na Califórnia. Tem ambições artísticas e sonha ir fazer faculdade em Nova York, bem longe da casa dos pais. Namora primeiro um garoto certinho, e depois um garoto rebelde. E vive se pegando com a mãe, que trabalha feito uma condenada e não tem paciência com os dramas dela. É bonitinho? É, razoavelmente. É simpático? É. É um grande filme? De maneira nenhuma. Na melhor das hipóteses, é mediano. Já vi a mesma história uma centena de vezes – e, em pelo menos uma dezena delas, ela era bem melhor do que aqui. No entanto, Lady Bird – A Hora de Voar está concorrendo em cinco categorias peso-pesado do Oscar: melhor filme, direção, atriz, atriz coadjuvante e roteiro. A única em que há algum merecimento que justifique a indicação é a de coadjuvante, para Laurie Metcalf, que faz a mãe da garota. As outras são fruto de delírio, hype e/ou condescendência: no ano do #MeToo, pegaria mal não haver uma mulher no páreo de direção.

Lady Bird – A Hora de Voar

 (Universal/Divulgação)

Como Greta Gerwig é fofa (é mesmo) e é uma graça de atriz em filmes como Frances Ha e Mistress America (ambos co-roteirizados por ela em parceria com o diretor e namorado, Noah Baumbach), escolheu-se falar dela, e votar nela, como uma fabulosa revelação logo em sua estreia solo na direção. E, para confirmar que ela é tudo isso, indicou-se também seu roteiro ao Oscar. Procurei com afinco esse talento todo no filme. Não encontrei. Greta é tão simpática como diretora quanto o é como atriz, mas não tem originalidade, não tem imaginação visual e não tem nenhum insight novo a oferecer. Pelo jeito, não tem também grande curiosidade pelo mundo: fazer história autobiográfica aos 34 anos é para quem tem teve uma vida muito singular, ou para quem é capaz de destrinchar o que há de complicado e único no banal e no comum (como Baumbach fez em um de seus primeiros filmes, o também semiautobiográfico A Lula e a Baleia). Nem a primeira nem a segunda coisa se aplicam a Greta. Estão vendendo, mas não compro.

Lady Bird – A Hora de Voar

 (Universal/Divulgação)

O que realmente lamento, porém, é que sem querer (ou, a esta altura, querendo) Greta tirou a vaga de gente mais merecedora: se a ideia é que as mulheres sejam mais representadas, o que é necessário, ali ao lado havia uma candidata infinitamente melhor, a Dee Rees de Mudbound – Mississippi em Lágrimas – essa, sim, uma cineasta digna do substantivo. Reparar injustiças é bom. Mas repará-las cometendo outras injustiças é péssimo.


Trailer

LADY BIRD – A HORA DE VOAR
(Lady Bird)
Estados Unidos, 2017
Direção: Greta Gerwig
Com Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges, Timothée Chalamet, Beanie Feldstein, Stephen Henderson, Lois Smith
Distribuição: Universal

Comentários
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  1. Fárlley Rodrigues

    Não é um filme ruim, mas foi com certeza o mais decepcionante que já vi.

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  2. Esperava uma daquelas pérolas que nos surpreende de vez em quando, mas achei o filme muito fraquinho, com cara de sessão da tarde. Porém, Hollywood é Hollywood e esta é obrigada a elevar este tipo de filme para não parecer “desantenada” com o que se passa hoje. Porém, eleva algo sem encanto, para suprimir outros que possuem mais qualidade. De todas as atrizes coadjuvantes, a que menos merece é a Octavia Spencer. As 4 restantes fazem papéis similares e fica difícil escolher. Se este filme ganhar nas outras categorias principais (filme, direção, melhor atriz) isto sim será uma injustiça.

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  3. Tadeu Santos

    Como vcs críticos de cinema são tão insatisfeitos. Para um filme ser bom não há necessidade de ter jogos de câmera, histórias arrebatadoras. O filme retrata muito bem uma adolescente com seus conflitos da idade e sua relação com mãe e ponto e faz bem o que se comprometeu a apresentar.

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  4. Dos indicados ao Oscar deste ano, minha torcida vai para o inventivo e pontiagudo Corra! (Get Out!), mas Me Chame Pelo Seu Nome e Lady Bird são outros dos concorrentes que angariaram minha simpatia.
    O filme de Greta Gerwig tem uma naturalidade engajante que resulta numa obra holística e desassombrada. A direção, a princípio despretensiosa, sabe como guiar o filme sem atravancá-lo com tecnicidades aleatórias ou dispensáveis.
    Eu gostei. Bastante.
    Que a apaixonante Saoirse Ronan leve a estatueta de atriz, pois sua concorrente direta (a Frances do inexplicável Três Anúncios para Um Crime) encarna uma personagem que é apenas um instrumento narrativo, jamais um ser humano.

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  5. Ernesto Ribeiro

    São bem conhecidos os “critérios” de premiação dos críticos de cinema americanos e da academia de Hollywood. Basta assistir aquele péssimo e tosco filme “O Lado Bom da Vida” e NÃO ver razão alguma para uma atriz pífia e inexpressiva como Jennifer Lawrence ter ganho tantas premiações e dezenas de indicações a tantos troféus. O pior caso é o de Gwyneth Paltrow: aquilo é tudo de ruim e de pior da maior fraude que a indústria inventou. Afunda cada frame de cada cena em que ela aparece. Mas desde que ela ganhou o Oscar em 1999, esse prêmio não é mais levado a sério por ninguém com um pingo de consciência. A carreira dela inteira uma piada: “Só mesmo com a imposição de poder dos tubarões da indústria pode explicar como um desastre desses está em tantos filmes e premiações.”

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  6. Caroline Marques

    Alguém tira essa mulher daí e o Rubens de comentarista da TNT que é feio falar essas besteiras sem propriedade.

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