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“Coringa” é o campeão em indicações, mas “1917” é o favorito

Cheio de indicações para agradar sem se comprometer, e pobre em descobertas mais arrojadas, o Oscar 2020 corre o risco de repetir marasmo dos anos recentes

Por Isabela Boscov - Atualizado em 13 jan 2020, 19h34 - Publicado em 13 jan 2020, 15h58

A Academia revê regras, tira do corpo de votantes gente que está há muito tempo fora do jogo, procura novos membros em setores mais inovadores do cinema e em outros países – e nada muda: se há uma coisa surpreendente neste Oscar 2020, é a baixíssima taxa de surpresas que ele oferece. Jennifer Lopez, que baixou como um furacão em As Golpistas? Esnobada. Lupita Nyong’o, o fio de alta-tensão sobre o qual Nós se equilibrou? Esnobada. Jamie Bell, enregelante como um neonazista em Skin? Esnobado. Eddie Murphy, que deu tudo o que tem em Meu Nome É Dolemite? Esnobado. A irlandesa Jessie Buckley, uma explosão de cor e calor em As Loucuras de Rose? Esnobada. Paul Walter Hauser, um eterno coadjuvante que se mostra um protagonista magistral em O Caso Richard Jewell? Esnobado. O Farol? Esnobado em todas as categorias exceto fotografia. À parte um ou outro lance mais arrojado, como a indicação de Klaus entre as animações e a de coadjuvante para a esplêndida Florence Pugh por Adoráveis Mulheres, a Academia foi no seguro e no previsível – para não dizer no preguiçoso, repetindo uma injustifícável indicação para Saoirse Ronan (há dois anos por Lady Bird, agora por Adoráveis Mulheres, ambos da diretora Greta Gerwig) e dando uma dobradinha para Scarlett Johansson, que compete como atriz por História de um Casamento e como coadjuvante por Jojo Rabbit. Juntamente com o sul-coreano Parasita (com seis indicações, inclusive, ufa!, para o diretor Joon-ho Bong), aliás, o filme do diretor neozelandês Taika Waititi é a inclusão mais irreverente e revigorante na categoria de melhor filme: não é todo ano que a Academia demonstra coragem para abraçar uma história como esta, sobre um pequeno nazista solitário que tem Adolf Hitler como amigo imaginário.

Coringa
Coringa – Warner/Divulgação

Até os supostos favoritos desta edição do Oscar parecem bem menos garantidos quando examinados em detalhe: a Netflix soma 24 indicações por O Irlandês, História de um Casamento, Os Dois Papas e Klaus, mas só está em peso de briga nas categorias de atriz, com Scarlett Johansson, e coadjuvante, com Joe Pesci e Laura Dern. E Coringa lidera com onze indicações mas, afora o quase certo (e merecidíssimo) prêmio de melhor ator para Joaquin Phoenix, deve ficar de mãos abanando nas categorias principais. A Academia, assim dá um jeito de ao mesmo tempo reconhecer o impacto do filme do diretor Todd Phillips (indicado), incluir uma história de quadrinhos e/ou super-heróis na lista para evitar acusações de preconceito contra esse segmento, e esquivar-se da controvérsia (exagerada) que cerca o filme. O Irlandês, Era Uma Vez em… Hollywood e 1917 vêm logo na cola de Coringa com dez indicações cada. Entre eles, porém, só o 1917 do inglês Sam Mendes tem chances reais (e, de novo, muito merecidas) de emplacar a dupla vitória filme-diretor. Se levar mesmo melhor filme, porém, será o primeiro desde Quem Quer Ser um Milionário?, de 2008, a papar o prêmio principal sem ter nenhuma indicação nas categorias dramáticas. Isso porque George MacKay, fantástico como o jovem soldado que conduz de cabo a rabo as duas sequências ininterruptas que constituem todas a ação de 1917, foi… adivinhe: esnobado. Em tempo, recomenda-se alguma cautela à torcida em torno de Democracia em Vertigem: praticamente imbatíveis na categoria de documentário em longa-metragem este ano são For Sama e Honeyland.

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