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Isabela Boscov Por Coluna Está sendo lançado, saiu faz tempo? É clássico, é curiosidade? Tanto faz: se passa em alguma tela, está valendo comentar. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Hoje é dia de ver (ou rever)… O Guerreiro Genghis Khan

Quer fazer um épico? Chame um russo

Por Isabela Boscov Atualizado em 15 jan 2017, 17h26 - Publicado em 15 ago 2016, 14h23

Por razões variadas (entre as quais, claro, pesa bastante a ascendência), sou fã do cinema russo e tento segui-lo tanto quanto possível. O que nem sempre é fácil, já que bem pouco dele chega aqui – e olhe que estou usando “russo” no sentido amplo: se é ex-União Soviética está valendo. Ainda que as diferenças e pendengas entre as ex-repúblicas sejam imensas (tanto que todo mundo correu para se separar na primeira oportunidade), existem dados culturais comuns muito fortes. Por exemplo, a quedinha para a grandiosidade na hora de fazer filmes. Sergei Bodrov, o diretor do muito curioso, interessante e original O Guerreiro Genghis Khan, que estou recomendando hoje, é russo mesmo; Timur Bekmambetov, o diretor do Ben-Hur de produção americana que estreia neste 18 de agosto, é do Cazaquistão – mas a vontade deles de pintar na maior tela possível, o gosto pelas paisagens vastas, a identificação com temas e personagens de grande escala, tudo isso é igual e faz parte de uma cultura muito arraigada, que é anterior à União Soviética mas foi também muito reforçada durante a existência dela. Esse, enfim, é um pessoal que gosta de sagas. E são bons nelas.

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É um bocado intrigante que Sergei Bodrov tenha dedicado tanto esforço a contar a história de Genghis Khan, o mongol que iniciou um império que, no século 13, com seu neto Kublai Khan (aquele que deu lugar em sua corte ao veneziano Marco Polo), chegou a abranger mais de metade do mundo conhecido de então. A Rússia foi um dos territórios conquistados por Genghis, e ele está longe de ser uma figura querida por lá. Na resenha que você lê aqui, eu conto minhas teorias a respeito da fixação de Bodrov com o personagem. Passados alguns anos desde que escrevi a resenha, eu acrescentaria mais um dado a ela: O Guerreiro Genghis Khan é um filme que procura alguma origem e algum sentido, e talvez a perda de seu filho, também chamado Sergei, em 2002, tenha a ver com essa sensação que Bodrov imprime ao filme, de busca sem gratificação. (Sergei Jr. interpretou o nadador do lindo Leste/Oeste, dirigido por Régis Wargnier, e morreu em uma avalanche no Cáucaso, aos 31 anos.) Mas, com ou sem teoria, o filme é belíssimo. Ele está disponível na Netflix e também no Looke, onde pode ser alugado de forma avulsa.

Leia aqui a resenha que publiquei quando o filme foi lançado nos cinemas:


Os lobos da estepe

Pode-se ver O Guerreiro Gêngis Khan apenas como um belo épico sobre o legendário conquistador mongol. Mas se pode também enxergar nele o desejo do diretor Sergei Bodrov de que a Rússia de hoje se alce da desordem ao poder

Se, como muitos acreditam, o épico é uma arte finada, então o russo Sergei Bodrov acaba de contribuir com um impulso valente para ressuscitá-la. Em O Guerreiro Genghis Khan, o diretor se vale de um tema típico do gênero – o da figura histórica que realizou feitos incalculáveis (leia-se, conquistou vastas extensões territoriais e matou muita gente) – para tirar dele um filme tão grandioso quanto curioso. Bodrov reafirma sem nenhuma reserva a tradição cinematográfica que o inspirou: o que não falta aqui são batalhas tremendas, cavalgadas em câmera lenta e paisagens dramáticas, fotografadas com o apuro formal que outra tradição – no caso, a das artes visuais russas – aprimorou. Ao mesmo tempo, o diretor inclina essas tradições em um ângulo inesperado, que autoriza a enxergar aqui uma confluência forte entre reverência e heresia.

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Genghis Khan narra a ascensão do menino Temudjin, filho de um dos inúmeros chefes tribais que nos séculos XII e XIII repartiam, com muita má vontade mútua, as estepes da Mongólia, até sua metamorfose em khan, ou líder supremo, dos mongóis e formador de um império que, com seus descendentes, logo viria a abarcar metade do mundo então conhecido. Na historiografia ocidental, e também na russa, o nome Genghis é virtualmente sinônimo de ferocidade e rapacidade, e só pela simpatia que Bodrov dedica a ele o filme já seria surpreendente. Mas há muitos outros elementos dissonantes em jogo aqui. Por exemplo, a opção pelo naturalismo no tratamento de um gênero que é antinaturalista por excelência: Genghis Khan é repleto de entreatos, em que Bodrov pouco faz além de observar seus personagens – muitos interpretados por não atores. A trilha sonora também rejeita a exaltação de praxe, trocando-a pelos sons estranhíssimos e angustiantes do canto gutural mongol. E, da mesma maneira que se move com veemência sempre que se move, o filme é capaz de longas pausas que não são prenúncio de nenhuma ação, ao contrário do que acontece, por exemplo, em uma produção como Lawrence da Arábia. O que realmente convida à indagação em Genghis Khan, entretanto, é o simples fato de ele existir – e de Bodrov ter investido tanto de si nesta história (que ele planeja transformar em trilogia).

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A vida de Genghis Khan é razoavelmente bem documentada, mas Bodrov nem sempre segue os registros. O que interessa ao diretor é que, em síntese, Temudjin se ergueu de um sistema social nomádico e primitivo, e de um infortúnio – o assassinato do pai, quando ele tinha 9 anos – que o condenou a uma juventude de escravidão, fugas e penúria, para dominar o mundo. A maioria dos cineastas do que foi o império soviético enfrenta em algum grau uma divisão íntima, decorrente de sua história tão conturbada, entre o movimento e a estase, entre avançar e rememorar, entre comemorar e lamentar. São dilemas que acometem artistas que só filmaram sob o comunismo, e também os mais jovens, que começaram quando o regime já havia ruído.

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Para a geração de Bodrov, que tem 61 anos e fez filmes antes e depois do fim da União Soviética, essas fraturas chegam a ser críticas. A crise, eventualmente, é benéfica à criação. Quando há talento, como no caso de Bodrov, ela faz surgir filmes extravagantes, conflituosos e ricos como O Guerreiro Genghis Khan. Entre os bons trabalhos do diretor está, por exemplo, O Prisioneiro da Montanha, sobre um velho checheno que quer trocar dois soldados russos por seu filho capturado; Bodrov não é defensor de um regime nacionalista e tirânico, mas um artista disposto a trazer à tona o que esse regime gostaria de manter submerso. Aqui, porém, a despeito de suas convicções, ele trai talvez involuntariamente a nostalgia funda dos seus compatriotas por uma grande Rússia. Espelhando-se na trajetória de um indivíduo, desafia os que descartam esse ex-império hoje tão reduzido a escombros e cindido por separatismos como um lobo que perdeu seu lugar na matilha. Temudjin, órfão de figura paterna e de liderança, extraviado entre clãs inimigos, derrotou não só outros lobos como matilhas inteiras. É como o vê Bodrov, ele próprio magnificamente extraviado entre um passado e um presente que, desconectados um do outro, só têm a oferecer aos russos insatisfação.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 10/01/2007
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2007
O GUERREIRO GENGHIS KHAN
(Mongol)
Rússia/Cazaquistão/Mongólia, 2007
Direção: Sergei Bodrov
Com Tadanobu Asano, Honglei Sun, Khulan Chuluun, Amadu Mamadakov
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