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Hayao Miyazaki e seus desenhos sobre procurar forças dentro de si

O diretor detesta a alcunha de “o Disney japonês”: eles não poderiam estar mais distantes na maneira como entendem o mundo e a infância

Por Isabela Boscov - 13 fev 2020, 19h53

Em Meu Amigo Totoro (1988), duas irmãs pequenas se mudam com o pai para o campo, para ficar mais próximas do hospital em que a mãe está internada, e têm de lidar com a confusão, a raiva e o desamparo. Em A Viagem de Chihiro (2001), a protagonista descobre que os pais comeram demais e viraram porcos — e ela então precisa trabalhar duro numa estranha casa de banho para libertá­-los. Em O Serviço de Entregas da Kiki (1989), a feiticeirinha deixa a família ao fazer 13 anos e, voando em sua vassoura, vai procurar outra cidade para abrir caminho na vida, sozinha. Em O Castelo Animado (2004), a adolescente Sophie acorda com 90 anos — mas, tendo sido sempre muito séria e trabalhadora, acha que a velhice lhe cabe bem.

Não é por acaso que Hayao Miyazaki detesta a alcunha de “o Disney japonês”: eles não poderiam estar mais distantes na maneira como entendem o mundo e a infância. Influenciado pelo xintoísmo, Miyazaki decanta em seus desenhos a visão de que o material e o espiritual, o palpável e o mágico, o humano e o não ­humano e o vivo e o inanimado dependem uns dos outros. Responsabilidades e adversidades recaem também sobre as crianças, e também elas manifestam desejo de realização. É isso que Chihiro, Kiki, Sophie e suas outras personagens têm em comum: a necessidade de procurar forças dentro de si para juntar­-se a esse todo, que Miyazaki representa sempre como a natureza — desenhada com uma beleza sublime, ela inspira e eleva.

Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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