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“El Camino”: tão formidável quanto os melhores episódios de “Breaking Bad”

Aaron Paul e Robert Forster, que morreu ontem, brilham no longa que apanha Jesse Pinkman no exato ponto em que o final da série o deixou

A certa altura de El Camino, há um duelo – mas um duelo de faroeste mesmo: os dois pistoleiros encarando-se de frente, com a mão na altura do coldre, prontos para sacar a arma, closes fechados dos olhos de cada um e o espaço entre eles eletrizado de tensão. O cenário, porém, nada tem de mitológico; é a periferia feia e cheia de galpões e ferros-velhos de Albuquerque, no Novo México, onde Jesse Pinkman cumpre mais uma etapa da sua interminável via-crúcis. O Walter White de Bryan Cranston passou à história recente da TV como um dos personagens (e interpretações) mais fabulosos já criados para uma série – o professor de química que leva uma vida apertada e decepcionante mas que, ao descobrir-se com um câncer terminal, paradoxalmente realiza todo o o seu potencial e encontra seu “eu” pleno. Com o pretexto inicialmente verdadeiro (e depois só isso, um pretexto) de deixar algum dinheiro para a mulher e os filhos, White evolui de fabricante artesanal de metanfetamina – é aí que entra Jesse Pinkman, um pequeno traficante que fora seu aluno no colégio – para psicopata graduado, com uma sede de poder e controle que nada sacia. Para mim, porém, o grande personagem de Breaking Bad, o eixo que dá sentido à trajetória de White, foi sempre Jesse Pinkman, interpretado por Aaron Paul com uma riqueza dilacerante de detalhes. Jesse já era um delinquente quando entrou na história, e obrigou-se a acompanhar White em cada passo do percurso. Mas nunca foi mau ou violento, e nem sua convivência próxima com White e com toda uma galeria de psicopatas das mais diversas colorações – como o aterrorizante Gus Fring de Giancarlo Esposito – conseguiu corromper a inesperada e desconcertante doçura que é sua essência. Jesse comeu repetidas vezes do pão que o diabo amassou durante as cinco temporadas de Breaking Bad, e sempre, invariavelmente, foi punido pelo que tinha de bom, e não pelo que fizera de ruim.

El Camino

 (Netflix/Divulgação)

Daí ser tão gratificante este longa escrito e também dirigido por Vince Gilligan, o criador de Breaking Bad, que apanha Jesse no exato momento em que o final da série o deixou – finalmente libertado por White do castigo a que o próprio sócio o condenara: anos acorrentado, enjaulado e tratado como animal por um cartel para produzir, como escravo, a metafentamina puríssima desenvolvida por White. Jesse foge do seu cativeiro no meio de um espetacular tiroteio em um Chevrolet El Camino, um muscle car com caçamba tão feio que é cult – e, com toda a força policial do estado em seu encalço, tem de se livrar do veículo tão chamativo e encontrar alguma maneira de desaparecer para sempre.

El Camino Robert Forster

Robert Forster (Netflix/Divulgação)

Seria um desserviço contar mais do que isso, porque Gilligan, escrevendo no seu melhor (o que é um colosso), enche as duas horas de El Camino de uma aflição e um desespero genuínos: está tão próxima a chance de Jesse, e no entanto cada novo desenvolvimento pode pôr tudo a perder. Digo apenas que alguns personagens memoráveis voltam a aparecer, e que há uma sequência excepcionalmente bem concebida em que Jesse visita a loja de aspiradores de pó de um sujeito solícito (a princípio) interpretado pelo grande Robert Forster (quem assistiu a Jackie Brown, de Quentin Tarantino, sabe como esse veterano do cinema e da TV é mesmo grande). Forster, de 78 anos, morreu ontem, justamente o dia da estreia de El Camino na Netflix, e é difícil pensar em uma maneira mais honrosa, para um ator, de se despedir da vida e da carreira. E por fim, é preciso dizer também que Aaron Paul faz aqui tudo que fez em Breaking Bad, e mais ainda. Um ator soberbo, que entendeu como poucos um personagem tão contraditório e o tornou maior do que jamais ele poderia ser na página. Ainda que a página venha assinada por Gilligan.


Trailer

EL CAMINO
(El Camino: A Breaking Bad Movie)
Estados Unidos, 2019
Direção: Vince Gilligan
Com: Aaron Paul, Jonathan Banks, Matt Jones,
Charles Baker, Robert Forster, Bryan Cranston
Distribuição: Netflix
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  1. Assisti o filme e não foi tão eletrizante assim. Esperava mais, quem sabe uma grande vingança ou coisa parecida….

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  2. Esperava mais… As muitas lembranças cansaram..e agora??? Sem dinheiro nem perspectivas de um futuro? Que aproveite a receita do puríssimo do Walther e encha a mala de grana..

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