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“Border”: o amor pode ser (muito) estranho

Filme do diretor Ali Abbasi é a melhor – e a única – combinação de romance, policial noir e folclore nórdico já feita

Tina (Eva Melander) tem feições brutas e estranhas, que lembram as de um leão, e dentes serrilhados como presas gastas; até onde ela sabe, sua aparência é resultado de uma anomalia genética. Quando sente um cheiro qualquer, ela fareja como um animal – e essa habilidade, de perceber pelo olfato emoções como medo, raiva ou culpa, faz dela uma excelente fiscal alfandegária no porto sueco em que ela trabalha. Nas horas livres, ela visita o pai (normal), que tem Alzheimer, ou anda pela floresta perto de sua casa, com os pés descalços para sentir a terra. Tina se dá melhor com os animais silvestres do que com as pessoas – embora tenha um namorado, um sujeito meio folgado com quem não faz sexo e que cria cães de exposição que a detestam. Certo dia, porém, um homem muito parecido com ela passa pelo seu posto no porto. Tina e Vero (Eero Milonoff) se intrigam um com o outro; encontram-se; e ela o leva para morar num barracão em sua propriedade. Pela primeira vez na vida, Tina sente um chamado erótico forte, quase irresistível – o que resulta na cena de sexo mais bizarra que eu, pelo menos, já vi no cinema. Vero conta para Tina o que ela é de verdade, e propõe a ela uma vida livre das regras morais humanas, sem solidão e sem olhares cheios de repulsa ou susto. Mas Vero talvez seja livre demais de regras morais para o gosto de Tina, e odeia as pessoas muito mais do que ela seria capaz de odiá-las. E, bom, estou deixando de fora deste resumo muitas, mas muitas coisas estranhas que se passam em Border, a melhor combinação de policial noir, romance e folclore nórdico, filmada com absoluto naturalismo, que você vai ver na vida. Até porque provavelmente será a única.

Border

 (Arteplex/Divulgação)

Se Border funciona tão bem e seduz tanto, é porque o diretor e corroteirista Ali Abbasi está tão comprometido com os aspectos fantásticos dessa história quanto com os aspectos realistas dela. Por causa de sua sensibilidade para as emoções alheias, Tina foi convocada a integrar uma força-tarefa que está investigando uma rede de pedofilia; de alguma forma, isso de novo a levará até Vero, mas por outro caminho (outro mesmo; não estou dando spoiler). No ponto em que todas essas linhas se cruzam, então, Border consegue ser muitas coisas diferentes de uma só vez. Como um bom noir, o filme espia as profundezas da depravação humana. Como um bom romance, põe no centro da história uma conexão tão intensa e perfeita quanto impraticável. Como um bom drama realista, fala da solidão involuntária, mas impenetrável, das pessoas que não conseguem se encaixar em nenhum mundo. E, como uma alegoria muito potente, examina o ressentimento dos cidadãos de origem muçulmana que vivem na Europa, e a maneira como esse ressentimento é facilmente explorado pelas facções empenhadas em radicalizar os descontentes. Ali Abbasi é iraniano; emigrou aos 21 anos para a Suécia, e de lá para a Dinamarca. Sabe do que está falando: assim como Tina se destaca da paisagem geral, também os cidadãos de origem árabe, iraniana, afegã ou síria se destacam na paisagem sueca ou dinamarquesa, e enfrentam uma série de pré-julgamentos pelo que aparentam ser. Daí ser tão interessante a opção que Tina faz em relação a Vero. Como um bom iluminista, Abbasi acha que às vezes é melhor ficar entre mundos, apesar do desconforto, do que pertencer ao mundo errado.


Trailer

BORDER
(Gräns)
Suécia/Dinamarca, 2018
Direção: Ali Abbasi
Com Eva Melander, Eero Milonoff, Ann Petrén, Sten Ljunggren, Matti Boustedt, Jörgen Thorsson
Distribuição: Arteplex
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