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Ben-Hur

Refilmar é pecado ou não é?

Por Isabela Boscov Atualizado em 13 jan 2017, 19h25 - Publicado em 19 ago 2016, 04h03

Veja aqui a vídeo-resenha


Com tudo que o cinema se pretende espetacular hoje em dia, o Ben-Hur de 1959 ainda é uma experiência única: são três horas e meia de saga com milhares de figurantes, muito saiote romano e sandália de couro, um baita clima (erótico, inclusive – ou, mais precisamente, homoerótico), a canastrice inimitável de Charlton Heston e cenas antológicas, que comprimem drama e ação com habilidade extraordinária. Ben-Hur foi indicado a doze Oscar e ganhou onze, um recorde que só seria igualado quase quatro décadas mais tarde, por Titanic (e depois, de novo, por O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei). Então é um pecado que o diretor Timur Bekmambetov o tenha refilmado, certo?

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Errado. Não há pecado nenhum. Por mais que doa dizer isso, a maior parte da plateia jovem de hoje não vai passar nem perto de um filme de 1959 cujas qualidades, para ser apreciadas, exigem que se dê um desconto aos seus aspectos mais antiquados – por exemplo, as atuações. Na verdade, talvez a nova refilmagem atice a curiosidade de um ou outro espectador pelo filme de 1959. Segundo: o filme do diretor William Wyler já era ele próprio um remake. Ben-Hur tivera duas grandes encarnações no cinema mudo, mas Wyler sabia que, com Technicolor e Panavision, poderia fazer um espetáculo muito mais grandioso do que o que já fora oferecido até então. O raciocínio de Bekmambetov é parecido: com as câmeras digitais leves e ágeis e as gruas que filmam a ação por ângulos antes inacessíveis, a sequência-clímax da corrida de quadrigas ficou um estrondo. Tanto que tem o dobro da duração da sequência filmada por Wyler.

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Terceiro, e decisivo: o Ben-Hur de 1959 não é cinema “de autor”. William Wyler foi um talento de primeira grandeza, mas fazia superprodução de estúdio, para lotar sala de cinema e vender muito ingresso. O dia em que alguém anunciar que vai refazer O Poderoso Chefão, Taxi Driver ou A Laranja Mecânica, vou sapatear nas tamancas, porque a qualidade autoral do cinema de Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Stanley Kubrick é insubstituível. É como alguém dizer que vai pintar um novo Michelangelo. Mas não é esse o caso de Ben-Hur. Principalmente, não é este o caso do novo Ben-Hur: com muita sensatez, Bekmambetov nem tenta competir com o “original” de 1959. Ele troca o épico pela ação, substitui a nota triunfante pelo tom conciliador, simplifica a história e faz um filme seu. É bem mais modesto, mas não é cópia. Às vezes, quando o adversário é muito formidável, fugir da briga não é vergonha – é a única tática possível.

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